A FAZENDA TRES BARRAS

Residência e terreiros da Fazenda Três Barras em 1935
No "Álbum de Itapira" de 1935, escrito por João Netto Caldeira ha referencia sobre a "Fazenda Três Barras".Naquela época a Fazenda pertencia aos srs.Souza, Abreu & Cia. O Sr. José de Abreu e o sr.João de Souza Dias eram os sócios-proprietários e administravam com muito orgulho aquela gleba de 140 alqueires.Situada a 16 Km de Itapira, após adentrar em Eleutério,logo na entrada a margem direita,essa Fazenda contava com 100.000 cafeeiros,terreiros ladrilhados,uma maquina possante marca Arens para o beneficio de café, um sólido engenho de cana para a produção de aguardente.Uma famosa "pinga", (Javinha) era ali produzida, cuja matéria prima vinha dos 8 alqueires de canaviais da fazenda.Havia plantação de cereais, cultura de fumo e de algodão.Havia também uma grande área reservada de matas virgens e pastos. Muitas cabeças de gado, bois de carro e vacas leiteiras ali foram criadas e tornaram o orgulho de seus proprietários. A fazenda abrigava ainda 20 famílias de colonos onde cada família habitava suas próprias casas e trabalhavam mantendo a vida daquelas produtivas terras.A casa sede era espaçosa, confortável e destacava-se, tendo-se a sua frente o espaçoso terreiro de café. Nos arredores as tulhas, os chiqueiros,os paióis, os mangueiros, o pomar, o rancho para o abrigo dos veículos,e o altíssima e reforçada chaminé de tijolos a vista do alambique,tudo isso emoldurava aquela que foi a grande Fazenda Três Barras.
Nessa época ou mais precisamente em 1926, já estavam trabalhando nessas terras, vindos de São João da Boa Vista, o Seu Augusto Ambrosio e seu filho Augusto Filho (Nenê Ambrósio), montadores de maquinas de café e marceneiros de "mão cheia", cujos nome discorreremos em matéria futura sobre a Vila de Eleutério.
Posteriormente a Fazenda foi vendida ao sr. João Ângelo que em 1962 vendeu-a ao Dr.Roberto de Carvalho Passos, medico ginecologista e clinico geral aposentado e residente em São Paulo. Dr. Roberto hoje com 76 anos foi casado com a Sra.Lilia do Carmo Barreto Souto, falecida.O casal tem uma filha única - Dulce Regina Souto Passos que e a atual proprietária e reside na fazenda. Dulce foi casada com o Dep. Estadual Carlos Nelson Bueno, de Mogi Guacu e era proprietária da loja "Algodão da Terra "onde comercializava roupas confeccionadas artesanalmente por ela própria. São seus filhos: Alexandre, 26 anos, químico; André, Agrônomo; Luciana, analista de sistemas e Henrique ainda estudante.Hoje Dulce está casada em segundas núpcias com os Sr. João Batista de Godoi Nascimento e desfruta com muito amor daquele recanto remanescente que antes fora a grandiosa "Fazenda Três Barras".

Igreja N.S. do Carmo, construída em 1962 pelos atuais proprietários
O fato que motivou esta matéria foi uma Igrejinha que vimos quando nos dirigíamos a Eleutério.Essa Igreja chamou-nos a atenção, minha e a do Paulino Santiago pelo abandono e por estar já um pouco roída pelo tempo.Resolvemos saber sobre suas origens. Ao adentrarmos na fazenda, nos recebeu um “pitt Bull” de fazer medo.Após fazer as pazes com o cão entramos em contato com a proprietária D.Dulce disse-nos ela que a mesma foi construída com o nome de N.S.do Carmo, por indicação de sua mãe Lilia do Carmo, devota da santa em 1962 logo que compraram a fazenda.Após seu falecimento a fazenda perdeu um pouco do seu viço e agora já com um grande parte de suas terras vendidas, restando apenas 10 alqueires não reflete mais a faina e a labuta diária de seus colonos e o orgulho de seus proprietários.Restam ali ainda algumas cabeças de gado e animais domésticos e um desinteresse compreensível em dar continuidade produtiva às terras. A Igreja está fechada e envelhecida. mas a chaminé muito mais antiga continua volumosa e altaneira, hoje sem a fumaça do passado, como que esperando lá do alto de seus quase 30 metros de altura o retorno de um tempo perdido.

Cão bravio "Pitt Bull" que faz guarda na Fazenda Três Barras.
Após muitos latidos, acabou fazendo amizades com o autor da matéria
Conta-nos ainda Dulce que uma grande parte das terras foi vendida recentemente cujo novo proprietário deverá e reavivar a grandiosidade daquela que foi uma das grandes fazendas produtoras de café em nossa cidade.Já se passaram 62 anos desde quando João Caldeira Netto, em seu "Álbum de Itapira" de 1935, fez referencia a Fazenda Três Barras. Muita coisa mudou.A cidade cresceu, evoluiu, se modernizou, e entramos em outros tempos onde as terras de cultura perderam muito de sua finalidade. Não se observam mais cafezais, alambiques, pastagens, açudes, já que a vida rural economicamente tem enfrentado dificuldades que desmotivam a sua produção.As dificuldades financeiras e o ônus que se paga pelas terras improdutivas obrigam. seus proprietários, aos poucos irem se desfazendo delas. Por outro lado nem sempre os herdeiros dessas propriedades rurais dão continuidade com a mesma forca de trabalho a manutenção da produtividade. Despreparados muitas das vezes e sem incentivos optam na maioria das vezes por vendê-las.
Hoje a Fazenda Três Barras não se encontra em condição diferente das inúmeras outras propriedades rurais e não vê alternativa economicamente viável em manter suas atividades agrícolas e ou pecuárias. Vai aos poucos se transformando num sítio e num lugar mais de sossego e tranquilidade do que numa terra produtiva e fértil.

Casa sede da "Fazenda Três Barras", hoje Fazenda Nossa Senhora do Carmo (Foto de 1997)
A agricultura e a pecuária não têm crescido e acompanhado nas suas bases rurais a mesma evolução que se processa nas áreas urbanas. Em que pesem a avançada tecnologia de apoio as atividades rurais ha uma defasagem em relação aos incentivos agrícolas para o aumento da produtividade. Se a cidade crescer para o campo e o campo se mudar para a cidade o nosso estomago deverá ir se esvaziando aos poucos e a fome já tão sem controle no mundo não nos afastara das temíveis previsões apocalípticas. Há que se encontrar soluções alternativas para um retorno mais saudável da qualidade de vida de todos.
E lógico que o ser humano sempre haverá de encontrar soluções satisfatórias para os problemas que o afligem, no entanto é nos alicerces do presente que poderemos ir construindo a harmonia do futuro de nossos filhos e netos sem o fantasma da fome a lhes rondar o destino. Fica aqui o nosso preito de gratidão e admiração pelos grandes proprietários rurais do passado, em cujas terras centenas de famílias puderam ter o privilégio de nascer e trabalhar.Fica aqui a nossa admiração pelos atuais proprietários rurais, herdeiros ou não das terras de seus antepassados pela teima e pela faina diária que dedicam a terra rural mesmo em tempos difíceis. Fica aqui a nossa compreensão àqueles que não puderam arcar com o ônus de mantê-las e que tendo na maioria das vezes se sentido impotentes e tristes perante a adversidade, optaram por vendê-las. Que novos tempos possam trazer esperanças e tornar as áreas rurais tão produtivas quanto antes e em permitindo a sua produtividade garantir o equilíbrio de nosso ecossistema e afastar o fantasma da fome em nosso planeta.
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