PADRE MATHEUS E A IGREJA DE SANTO ANTONIO

Padre Matheus Ruiz Domingues
Padre Matheus Ruiz Domingues chegou a Itapira na década de 50. Nasceu em 31 de dezembro de 1913 na cidade de Polopus, Espanha e faleceu em Itapira em 20 de Setembro de 1973. Recebeu o nome na pia batismal de Mateus Silvestre. Aos 8 anos de idade veio para o Brasil na companhia da família passando a residir na fazenda Itaqueri, SP, em 1922. Dedicou-se à lavoura sendo também aprendiz de funileiro na Oficina de uma indústria de açúcar. Com 18 anos, ingressou no Seminário menor de Campinas, tendo concluído aí em 1933 o curso colegial. Em 1939, ingressou no Seminário Ipiranga, na capital..Foi ordenado sacerdote em 8 de dezembro de 1945, pelo saudoso Dom Tarso Campos em cerimônia celebrada na Catedral daquela cidade. Iniciou seu ministério sacerdotal como coadjutor do Monsenhor Lisboa em Amparo até 1946. Em 1949 foi nomeado Vigário em Lindóia. A seguir foi designado Professor do Seminário e Diretor de Disciplina, onde permaneceu durante oito anos. A 31 de agosto de 1958 foi nomeado 1º Vigário da recém criada paróquia de Santo Antonio em nossa cidade.
Histórico

A Igreja de Santo Antonio vem de uma história que remonta a primeira capelinha da “Maõzinha” e ao morfético Nicolau, um ex-escravo que morreu naquele local em 1906 mais ou menos. Como era portador de uma doença que na época chamavam de lepra (hoje mal de Hansen), as autoridades sanitárias temendo que a doença fosse contagiosa mandou que ali mesmo Nicolau fosse enterrado juntamente com todos os seus pertences e madeira de seu casebre. A crendice popular se iniciou, após algum tempo quando nasceu um cogumelo na sua sepultura em forma de mão, lembrando a mão paralisada pela doença que acometeu o leproso. A partir daí uma série de “milagres” permitiu que o povo muito religioso e crédulo acreditasse que a mãozinha era santa. Uma capela então foi erigida para abrigar em uma redoma de vidro a referida “mãozinha”. Passados alguns anos resolveu-se construir uma igreja maior com o nome ainda de Igreja da Mãozinha. Iniciada em 1909 o templo já estava praticamente construído em 1913. Foi designado como pároco pelo Bispo Don Nery, o padre português Manoel Carlos de Amorim Correia. O nome Igreja da Mãozinha desagradava o clero porque esse nome não era o de um santo. Pensava-se na mudança do nome da Igreja, no entanto, nesse ínterregno o Padre Amorim se desentendeu com o clero e foi excomungado. Não satisfeito com sua excomunhão, fundou a Igreja Brasileira e se autodenominou Papa da 1ª Igreja Brasileira no Brasil renegando os poderes do Santo Papa do Vaticano. Com essa medida e tendo falecido pouco tempo de pois, vítima de doenças crônicas e vida desregrada a Igreja ficou acéfala e algumas décadas após foram retomados os trabalhos eclesiásticos culminando com a criação da Igreja de Santo Antonio, onde o Padre Matheus Ruiz Domingos assumiu os trabalhos. (A História da Igreja da Mãozinha e da Igreja Brasileira estão no índice geral deste site - clique aquí -
Há 11 de março de 1965 foi naturalizado cidadão Brasileiro. No dia 24 de julho de 1968 foi elevado à categoria de Cônego do Cabido Metropolitano de Campinas, honraria que mui justamente lhe foi conferida por Dom Paulo de Tarso Campos, como público merecimento de seus altos méritos. Suas obras foram inúmeras: implantou o Educandário Nossa Senhora Aparecida com seus 14 alqueires de terra, abrigando par mais de 60 meninos; a Escola Paroquial com 8 salas de aulas, biblioteca, secretaria e sala para jogos de raciocínio; o salão social para reuniões e festividades da paróquia, encerramento de cursos, etc. E especialmente construiu a nova Igreja de Santo Antonio cuja vontade idealizadora e muita fé aí está sobrepujando o tempo e conferindo à posteridade tão magnífica obra artística e histórica. Muito trabalho, muita fé e muito ideal fizeram desse batalhador das causas sociais um partícipe das obras concordantes com os planos divinos. Foi um grande coração que carinhoso que sabia afagar as crianças, que incansável frente as atribulações diuturnas predispunha-se a ajudar sempre e caridoso nos seus objetivos mais prementes, ansiava por dar direção às almas necessitadas.
Fundação da Igreja de Santo Antonio

Padre Matheus e o Arc.Bispo D. Paulo de Tarso Campos quando do lançamento
da pedra fundamental em 18 de julho de 1965 pró construção do novo templo de Santo Antonio
Compareceram
pra essa solenidade tão esperada a S. Excia.Revma. D. Paulo de Tarso Campos, o
vigário Padre Matheus Ruiz Domingues, o Prefeito Luis Alves Lima, Deputado
Nagib Chaib, vereadores e de enorme número de devotos e religiosos. Festa de
gala com a presença de multidão que se avolumou em torno do Padre Matheus,
Muitos discursos foram proferidos em nome dos paroquianos e o prefeito Benedito
Alves Lima fez um retrospecto sobre a biografia do ilustre D, Paulo de Tarso.
Discorreu também sobre os anseios futuros da população católica, sempre
crescente, para a construção de um novo templo com projeto arquitetônico
moderno e funcional. A ata da cerimônia, segundo se lê abaixo, foi redigida e
lida pelo sr. Wanderley Zázera..
“Aos dezoito
dias do mês de julho de ano da era Cristã de mil novecentos e sessenta e cinco
(18.07.1965), nesta cidade e comarca de Itapira do Estado de São Paulo, na Praça
de Santo Antonio, padroeiro da Nova Matriz à rua Manoel Pereira esquina com a
Ribeiro de Barros, às 16,00 horas, procedeu-se as cerimônias referentes ao lançamento
da pedra fundamental do novo Templo Religioso que naquele local será erigido. A
hora aprazada compareceram àquele local, grande multidão de fiéis, sr.
Benedito Alves Lima, mui digno Prefeito Municipal; srs. Vereadores à Câmara
Municipal de nossa cidade e demais autoridades, inclusive imprensa. Para tão
importante solenidade foi especialmente convidado sua Excelência, o sr.
Arcebispo de Campinas, Dom Paulo de Tarso Campos, cuja presença em nossa cidade
somente trás satisfação e alegria ao povo em geral e especialmente ao povo
católico, em se tratando, como no caso presente , de solenidade para a construção
de um novo e magnífico Templo. Após as solenidades de praxe, e depois de haver
o digníssimo Prefeito Municipal sr. Benedito Alves Lima, saudado o sr.
Arcebispo, Dom Paulo de Tarso Campos, por S. Excelência foi plantada e benta a
pedra fundamental da Nova Matriz de Santo Antonio, desta cidade, cujo Templo que
funcionará como Matriz de Santo Antonio propriamente dito, terá, além de
outras finalidades, local para
funcionamento da Escola Paroquial...”
As obras da Igreja se iniciaram já em outubro de 1965 e a inauguração do salão paroquial e mais 8 compartimentos em 12 de março de 1967.
Benção
da 1ª telha

Dom Antonio Maria Alves Siqueira , Arcebispo de Campinas abençoando simbolicamente a colocação da primeira telha do templo de Santo Antonio em 26 de abril de 1970
A
comunidade católica se orgulhou e festejou intensamente no dia da benção da
primeira telha em 26 de abril de 1970. que foi dada pelo Arcebispo de Campinas
S. Excia, D. Antonio Maria Alves Siqueira Padre Matheus sempre muito laborioso e
dinâmico nos afazeres em prol da construção da Igreja de Santo Antonio , também
não mediu esforços na fundação do Educandário Nossa Senhora
Aparecida que abrigava crianças órfãs e menores abandonados., dando-lhes
educação, formação religiosa e encaminhando-os aos para o mercado de
trabalho. Foi a maior obra assistencial criada em nossa cidade Não se cansou
enquanto não adquiriu as terras da família Poloni, lá no alto da rua da
Penha. “Seus donos se propuseram a transferir a posse da gleba em trono de um
sublime ideal humanitário, cujas idéias foram criadas pelo saudoso
sacerdote”.

EMEI Cônego Matheus Ruiz Domingues
Padre
Matheus não media esforços, angariando fundos e visitando diariamente as obras
da Igreja. Ministrava seus ensinamentos através das missas, aconselhamentos e
atividades inerentes de sua missão religiosa. Era portando um madrugador
incontestável, perdendo horas de sono para dar conta de
todos seus afazeres administrativos e religiosos. Sempre levou mensagens
de fé, esperança e otimismo o que lhe valeu respeito entre seus fiéis e até
daqueles que professavam outras religiões, tais como César Bianchi que através
da crônica “Para a Vida Espiritual”, redigida em 7 de outubro de 1973 teceu
profundos reconhecimentos em homenagem ao Padre Matheus.
Inauguração
do Templo

Arcebispo Dom Antonio quando adentrava no novo templo de Santo Antonio, para a sua inauguração em 8 de abril de 1973
Um momento raro para o Cônego Matheus quando participou da sagração da Igreja Matriz de Santo Antonio em 8 de abril de 1973 ao lado do Acebispo D. Antonio Maria Alves Siqueira e do padre Luiz Benedito Pessoto
Finalmente
após muito esforço e trabalho, precedida por inúmeras festividades deu-se a
inauguração e sagração da Igreja de Santo Antonio.em 8 de abril de 1973. A
solenidade contou com a presença de Dom Antonio Alves de Siqueira, - bispo
Arquidiocesano de Campinas que oficiou a cerimônia de inauguração e consagração
da Igreja de Santo Antonio, seguido depois de uma Missa Solene. Após encerrada
a missa discursou o paroquiano Flávio Zacchi em nome dos paroquianos assim se
expressando:

Flávio Zacchi de saudosa memória, falou representando os paroquianos
Este
acontecimento do qual tivemos a honra de participar, ocupará sem dúvida alguma
uma das páginas da história de nossa Itapira. Sabemos que raramente esta cerimônia
se repete e por isso sentimo-nos mais uma vez imensamente honrados e agradecidos
a Deus que tantas graças nos tem concedido, a vossa excelência pelo carinho e
apoio que nunca faltou às nossas obras, e também ao nosso pároco Com.Matheus.
Caros
amigos. Há 14 anos sob a proteção de Santo Antonio e direção desta alma
privilegiada, cheia de santo entusiasmo e tremenda capacidade de trabalho que se
concentram ba pessoa de seu pároco, iniciavam-se os trabalhos religiosos desta
paróquia. O que foram os primeiros trabalhos no campo espiritual, religioso e
na transformação de nossa igreja em seu aspecto espiritual e material,
sabem-no todos que acompanham a vida desta comunidade. Mas é forçoso e
constitui mesmo um imperativo da Justiça proclamar a fé, a confiança, a
capacidade de trabalho, o espírito de liderança, a par da grandeza de alma e
espírito de seu pároco o sr. Con.Matheus.
Mas,
ainda em suas múltiplas atividades sempre voltadas a Deus e ao bem estar comum,
uma há que constitui o testemunho de seu amor à sociedade, à comunidade que
procura servir, com desmedido desvelo: “O Educandário Nossa Senhor
Aparecida”. Com sede própria e abrigando mais de 60 meninos.
Sr.
Cônego Matheus, esta oportunidade da Inauguração e sagração deste Templo
constitui o ensejo que há muito aguardávamos, para testemunhar-lhe de viva
voz, o nosso reconhecimento, a nossa admiração, a certeza de nosso
incondicional apoio, pelo muito que o sr. fez, e certamente ainda fará nesta
cidade, pois o seu espírito e o seu ideal nos faz presumir sempre mais
trabalhos, mais realizações, para maior glória de Deus e grandeza de seu
ministério.
Ainda
no correr da cerimônia falou o garoto Benedito Ortiz Lucio, abrigado do Educandário
Nossa Senhora Aparecida – órgão criado e mantido por Cônego Matheus Ruiz
Domingues – que sensibilizando a todos, disse o quanto segue:

Benedito Ortiz Lucio, um dos meninos abrigados do Educandário Nossa Senhora Aparecida, homenageando o Padre Matheus
Coube
a mim a honra de representar neste instante a Comunidade de jovens da Paróquia
de Santo Antonio. Inicialmente queremos apresentar a nossa saudação a Dom
Antonio Maria Alves Siqueira, dizendo a Sua Excelência Reverendíssima, da
nossa satisfação em tê-lo em nosso meio reconhecendo o sacrifício que faz
para aqui estar, pois seus compromissos dentre os seus inúmeros afazeres.
É
por isso que nos honra, sobremaneira, a visita que nos faz, pois não é sempre
que os jovens podem contar com a presença de tão elevada autoridade da Igreja.
Senhores,
este é um momento importante para a igreja de Cristo e inesquecível para nós
paroquianos, quando se promove a Sagração deste Templo. Quantas lutas e sacrifícios
testemunhados por todos, para se chegar ao término da construção desta casa
de oração e que servirá de local para a reunião da Família e do povo de
Deus. E isto graças à colaboração da nossa gente e principalmente pelo
trabalho intenso de nosso pároco Cônego Matheus Ruiz Domingues, que
demonstrando sua abnegação à causa de Cristo, não mediu esforços e conseqüências
para chegar ao ponto que chegamos.
Portanto
a ele, os jovens apresentam, agora o seu reconhecimento pelo exemplo que lhe
deu, de serviço, desprendimento e amor ao próximo.É portanto uma obra que em
todos os aspectos, vem beneficiar a comunidade cristã de Itapira e
principalmente os jovens que levados pelo exemplo de seu chefe espiritual muito
poderão faze em prol dos menos favorecidos.
Finalizando congratulamo-nos com todos os cristãos por contarmos com
mais este Templo agradecendo a Cristo Jesus pelas Graças alcançadas rogando
que nos abençoe e ilumine para que possamos iniciar obras deste vulto em outros
campos de atividade humana.

Padre Matheus em seu discurso de agradecimento
No
final falou o Cônego Matheus para agradecer especialmente o apoio sempre
presente da comunidade católica de Itapira lhe proporcionou, sem o que seria
impossível a edificação do grandioso Templo de Santo Antonio.
Estiveram
presentes nessa solenidade familiares do Cônego Matheus, diretores dos Grupos
Escolares, o ex-prefeito Helio Pegorari, o Coletor Estadual Anthero A. Macha e o
Diretor da “Folha de Itapira” Antonio Carlos Sette.

Comunidade paroquiana, lotando a nave central do novo templo quando da sua inauguração em 8 de abril de 1973
A comunidade católica expressou sua fé comparecendo em massa nesse auspicioso momento religioso de Itapira. Assim nossa cidade ganha um templo digno dos mais altos elogios tanto pela sua parte arquitetônica arrojada como pelo que representa para a comunidade católica em termos de fé e espaço para suas atividades religiosas e educacionais.

Novo Templo da Matriz Santo Antonio
Cônego Matheus Ruiz Domingues faleceu em 29 de setembro de 1973 e deixou uma multidão de fiéis sem os seus ensinamentos mais puros da cristandade. Sua vida foi toda devotada ao bem estar comum, à formação de educandos e à construção de obras religiosas de imenso valor dentro do contexto sócio-educacional. Cumpriu exemplarmente os ditames de seu ministério e angariou o respeito e o agradecimento de todo povo itapirense, mesmo dos que professavam outros ideais religiosos. Seu falecimento foi sentido pelas esferas maiores da religião estando presente nessa última homenagem o arcebispo de Campinas D.Antonio Maria Alves de Siqueira que h´bem pouco tempo esteve aqui para a inauguração do novo templo de Santo Antonio.Um grande cortejo reunindo todos os religiosos e o povo em geral, incluindo pessoas da região e de outras cidades quer o conheciam e lhe prestavam a maior admiração. O corpo do Cônego Matheus seguiu da igreja Matriz de Santo Antonio, seguindo inicialmente pela rua Manoel Pereira, até a rua XV de novembro e finalmente até a rua Alfredo Pujol onde se localiza a própria Matriz de Santo Antonio.O corpo do Cônego Matheus foi sepultado em sepulcro especialmente construído para esse fim. Seguiram-se manifestações de consternação emocionantes manifestadas pela população presente e os acordes fúnebres da Banda Lira Itapirense, enchiam de tristeza, silenciando a nossa alma para uma reflexão de pesar e perda irreparável.

Cônego Matheus Ruiz Domingues
(*31.12.1913 - +29.09.1973)
Alma das mais puras que deverá descansar na eternidade e perdurar na posteridade histórica e religiosa de nossa terra.
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