"A IGREJA DA MÃOZINHA"

 

 

 

Construção da Igreja entre 1909 e 1913

e antes de sua demolição em 1965.

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 LEMBRANÇAS

 

Muito poucos  jovens de hoje sabem da verdadeira origem e história da Igreja Santo Antonio em cuja parte térrea funcionou o Colégio Anglo. Situada  bem  ali  na  confluência  das  ruas  Manuel  Pereira, Rua da Penha e Ribeiro de Barros, foi palco, antes da sua  construção ( quando ainda se chamava "Igreja da Mãozinha") de muitas quermesses, leiloes, e retretas sempre abrilhantadas pela Banda Lira, que  carinhosamente  chamávamos de "furiosa ".Com que alegria, deslumbramento e boquiabertos ficávamos em frente ao coreto, montado ali do lado esquerdo da igreja, onde hoje está o  portão do Colégio Anglo, à espera do início das  primeiras músicas. Com  que  ansiedade aguardávamos o Passarella, (exímio pistonista e maestro) dar os  três apitos característicos avisando os músicos que iria dar início a retreta.No primeiro apito todos se

 aprontavam, pegavam seus instrumentos e arrumavam as partituras nos respectivos cavaletes que ficavam a sua frente; no segundo apito cada músico preparava e posicionava o seu instrumento.Aqueles que tocavam  instrumentos de sopro, faziam a embocadura, o que tocava o bumbo ajeitava o suspensório de couro que sustentava o tambor e encostava a baqueta  no couro do  instrumento, o músico que tocava pratos, aprumava-os levantados e paralelos pronto para dar a primeira "pratada". O maestro Passarella com a mão esquerda segurava o piston e com a direita mantinha o apito na boca aguardando o silêncio da espera. Após o terceiro apito e já o tendo guardado no bolso do uniforme batia-se primeiro o bumbo e iniciavam-se os dobrados que alegravam até as dez horas da noite a festa da "Mãozinha".

 

 

Integrantes da Banda Lyra Itapirense:

Sentados, da esquerda para à direita - Fidelis Trani, Américo Levatti, João Brandão Júnior, Américo Passarella (maestro), João Nicolau Sobrinho (João Turco) e Anésio Carvalho. Em ´pé (2ªfila), na mesma ordem: José Antonio Riberti, Arlindo Castellani, Aldo Boretti, José Vieira de Melo (Ica), Albertino Moraes, Silvio Dini (Mazola), Antonio Passarella e Pedro Barbosa. Em pé (3ªfila) e na mesma ordem: Harley Xumei, Alberto Pontes, Antonio Bruno Xumei, Geraldo Marcatti e Calisto de Souza. O mascote da Banda é Décio Levatti, filho de Américo Levatti.

 

Ainda lembramos com saudade da barraca da roleta, onde arriscávamos os nossos "merréis" afim de ganharmos um prêmio (ora um cartucho de balas, colorido, um bolo, ora uma prato de doce, ora algumas peças de porcelana etc.). Ainda lembramos dos rojões, dos sinos anunciando o fim da reza, da iluminação feérica e dos degraus em quadratura da escadaria com seus  12 ou 13 degraus. Ainda lembramos dos namoricos atrás da igreja onde além do escurinho quase ninguém  aparecia por lá, tornando o ambiente propício para aquelas finalidades até inocentes,  ao comparar com com o andar da carruagem de hoje em dia.

Lembramos ainda dos pastéis, quitutes e dos "brodos" que a D.Amélia Zacchi,  fazia lá nos fundos da Igreja, trabalhando até altas horas da noite, juntamente com seu marido Carlos (Carlim) Zacchi  e seus filhos Flávio(de saudosa memória), Maria Inês, Gilmere, João Carlos e Irene, enquanto durasse a quermesse. A gritaria  do leilão nos empolgava e parece-nos ainda ouvir na voz cansada e já rouca do leiloeiro o tradicional: "Quem dá mais..., Quem dá mais...; Dou-lhe uma; Dou-lhe duas; Dou-lhe três...Vendido  para  o sr. Carlim Zacchi, ou sr. Felício Citrângulo, ou ainda para o sr. João Francioso". E lá iam os contemplados saborear o bolo o peru assado, ou mesmo criar os penosos (patos, galos, frangos e galinhas) arrematados vivos.

Lembramos ainda da correria pelo meio da multidão, da algazarra que a molecada fazia, dos correios elegantes do quentão, da pipoca quentinha das broncas do padre e do sacristão, que naquela época era o sr. Setti  e muito mais. Bons tempos aqueles! Nos dias de hoje quase  todos ainda se lembram da figura saudosa e carismática do Padre Mateus e podem alguns até mesmo se lembrar do início da  construção da Igreja, no entanto ignoram como ela era antes de ser como é hoje  e quais os fatores  históricos que  envolvem a sua existência.

Muitas outras lembranças ficaram marcadas em nossas vidas: as procissões, as velas acesas que não poucas vezes ateavam fogo nos véus das beatas, a matraca usada nas procissões, cujo ruído metralhava os nossos ouvidos e que nunca ninguém nos explicou porque serviam.Hoje sabemos que a matraca só é utilizada nas procissões da sexta feira santa de cada ano e tem a função simbólica de convidar a todos os cristãos  ao recolhimento  e à oração. Antigamente servia para comunicar ao povo judeu que ia haver uma crucificação.Como Jesus era judeu e tendo sido crucificado o simbolismo da matraca perdura ate os dias de hoje. A D. Herminia Zacchi , irmã do Carlim Zacchi, nossa professora de catecismo e preparadora de nossa primeira comunhão talvez até tenha explicado esses pormenores sobre a matraca na época, no entanto nós não prestávamos muita atenção. Dona Herminia cuidava de nossa vida cristã e envolvia-nos com muitas histórias religiosas.Vez ou outra chamava a nossa atenção por atrapalharmos as rezas e as missas com nossas risadas e fuxicos, próprias da nossa idade.

 

 

"Gruta do Coleginho" onde também eram ministradas aulas de religião.

 

Aos padres só restava mesmo pregar-nos os cotidianos sermões e contemplar-nos com uns "santinhos" após o "bença padre". E a costumeira resposta"Deus vos  abençoe meu filho e muito juízo...". O catecismo era ministrado  por D.Herminia, às vezes no interior da igreja, às vezes na gruta do "coleginho" e sempre as predicas recriminava e envolvia aquilo que a gente mais gostava de fazer: - malandragem.Aos poucos D. Herminia ia conseguindo seus objetivos e nos colocando nos rumos cristãos tão em falta hoje em dia.Cometíamos sacrilégios quando ríamos das pessoas, do mo-

do que caminhavam durante o trajeto da procissão e de suas expressões  faciais, sérias e piedosas, quando cantavam e rezavam? Creio que não.

O pecado é coisa maior do que isso.Uma vez que um priminho meu, de uns 5 anos mais ou menos, na sua inocência, quando assistia a passagem de uma procissão, vendo o Cristo carregando a Cruz gritou a altos brados: Manhê!!! Olha o avião...Entre risos, "psius", fica quieto menino e que tais, eu  me esculhambei também de rir. Passado esse primeiro momento, veio-lhe um puxão de orelhas e que até hoje esse priminho não sabe o porquê???

Fiquei muito preocupado na época pelo desrespeito e pelo possível sacrilégio que pudesse ter cometido, rindo daquele jeito...Enfim tudo passou e hoje lembramos com saudade mesmo desses momentos "desrespeitosos" de nossa meninice.

 

 

Dona Hermínia Zacchi

 

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     COMENTÁRIOS HISTÓRICOS

 

          

 

Nesta revista “A Cigarra” de Abril de 1956 Jácomo Mandatto conta aspectos da história de Itapira enfocando 

a Igreja da Mãozinha e as “Origens da Igreja Brasileira”.

Em 1959 faz editar a sua obra “Relíquias da Terra Natal”  - primeiro livro sobre a nossa história -.

 

 

Alguns aspectos de relevância considerados muito importantes nortearam a  publicação deste texto histórico: primeiro, re-

  lembrar o próprio fato histórico e segundo acrescentar novas informações pertinentes, quando da demolição da antiga Igreja em 1965.

A história da Igreja da Mãozinha já foi cantada em prosa e verso principalmente por Jácomo Mandatto, com a publicação de matéria

 pertinente na Revista Cigarra Magazine em Abril de 1956 e depois em seu livro "Relíquias da Terra Natal". No entanto nunca é demais relembrar que a origem do nome "mãozinha" que foi dado a antiga Igreja Santo Antonio se deveu a

 crendice popular devido a um fato insólito e coincidente ocorrido  naqueles idos de 1906. Nesse tempo onde hoje esta a igreja Santo Antonio não existia nada além de uma estrada, (hoje Rua da Penha) que ligava  Itapira a vizinha cidade de Amparo e alguns casebres esparsos aqui e ali.À beira dessa estrada onde hoje esta localizada a Igreja Santo Antonio vivia em um  ranchinho um preto velho chamado Nicolau. Marcado ainda pelas agruras da  escravidão e pelas chagas  de uma doença antigamente chamada de "morféia","doença  de Lázaro" ou ainda "Lepra" (e que hoje sabemos tratar-se da Doença de Hansen ou Hanseníase), Nicolau vivia ali seus dias de sofrimento e angústias às expensas da caridade alheia.

A terrível doença marcou  profundamente seu  aspecto físico.Suas mãos ficaram paralisadas e deformadas pela doença e as  pessoas não se aproximavam com medo de serem contagiadas.Não haveria de durar muito tal sofrimento até que certo dia do ano de 1906 deixava de existir 

"o  morfético Nicolau" cujo corpo ali mesmo foi enterrado.Por precaução das autoridades sanitárias da época,  todos os "seus pertences e o seu casebre foram queimados.Com o passar do tempo  devido a umidade do terreno, do apodrecimento da madeira enterrada e das chuvas, cresceu, um cogumelo (desse tipo "orelha  de pau" na sepultura do preto velho. A crendice popular logo associou o formato daquele cogumelo ao formato da mão deformada do defunto. Devido a esse fato, "alguém formulou uma promessa para que um parente enfermo sarasse e, caso obtivesse a cura conseguiria um lugar para colocar a "mãozinha". E, por incrível que pareça , milagre ou não, a verdade é que o doente recuperou a saúde...O povo acreditou no milagre. A notícia espalhou celeremente pelos quatro cantos da cidade.Promessas e mais promessas foram feitas.Todos os enfermos tinham esperanças de curarem seus males.A 2 de outubro de 1907, reunindo-se a Câmara Municipal de Itapira, resolveu-se conceder autorização para a "transferência da propriedade de dois lotes de terras doados por alforria a Maria Madalena da Silva, Rosalina da Silva Prado e Antenor Soares de Queiroz Prado". Estes terrenos estavam situados à antiga Rua número 1, hoje Manuel Pereira, e faziam esquina com a Estrada do Amparo, atualmente Rua Ribeiro de Barros.Em setembro daquele mesmo ano organizou-se uma comissão e ficou deliberado erigir-se uma capela sob a invocação da Santa Cruz da Mãozinha. Dois meses depois, uma modesta capelinha - dessas que se constroem em sítios - estava em pé e no seu interior foi colocado o cogumelo, que os crentes adoravam-no como sendo a milagrosa "mão-de-pau do leproso Nicolau" Segue-se a partir daí muitos relatos sobre curas que foram transcritas do jornalzinho "A Igreja Brasileira", que circulou em Itapira entre os anos 1914 a 1934.Nessa capelinha afluiu muita gente, incluindo romarias de cidades da região. Mais tarde, uma Igreja que por muito tempo foi conhecida como "Igreja da Mãozinha" foi ali erigida e substituiu a antiga capelinha. A construção desse novo templo contou com o apoio de  inúmeras famílias religiosas da cidade principalmente daquelas que habitavam as adjacências do local e em particular os Freitas da Rua do Amparo, hoje Rua da Penha.

o culto à "mãozinha" prosseguiu sem mais novidades até no princípio do ano de 1913, quando se deu a fundação da Igreja Brasileira.

 

Na próxima página abaixo, os textos se referem aos aspectos da Igreja da Mãozinha e a fundação da Igreja Católica Apostólica Brasileira,  fundada pelo padre Manoel Carlos de Amorim Correa.

 

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  DESCOBERTAS

 

Conforme  Jácomo Mandatto no ano de  1907  houve uma petição feita pelos srs. Cristovam  Alves Pinto e Francisco  de Paula ao prefeito da época, através de uma sessão ordinária na Câmara Municipal, onde solicitavam isenção de pagamento de  foro de um terreno no qual  pretendiam edificar uma capela da "Santa Mãozinha". Coincidentemente, revendo meus alfarrábios e "papeis antigos" encontrei os mesmos nomes citados por Jácomo Mandatto - CRISTOVAM ALVES PINTO E FRANCISCO DE PAULA e mais os de meu avô paterno Manoel de Freitas, vulgo (Mané Bonito) e o de Manoel Gonçalves Lambais. Esses quatro nomes assinam uma petição para isenção de imposto de um leilão realizado em 09 de Junho de 1907 em prol da construção da "Capela da  Santa Cruz da Mãozinha". Os documentos que atestam essas informações tem uma história deveras"interessante, porque foram encontrados no interior de uma "caixa", ou pedra fundamental enterrada nos alicerces da "Igreja da Mãozinha", quando da sua demolição em 1965. Mas esses papeis não eram para ser encontrados, não fora a lembrança passada de pai para filho.Meu avô Manoel de Freitas  fazia parte da comissão pró-fundação da "Capela da Mãozinha", juntamente com os nomes já citados e estava presente quando do enterramento da caixa ou pedra fundamental nos alicerces da futura Igreja. Isso em 1908. Meu pai Manoel de Freitas Filho

 ( Neco de Freitas), que nasceu em 1909 só tomou conhecimento de que esses documentos estavam enterrados nos alicerces da Igreja, uns 50 anos atrás quando meu avô lhe contou.Passou-se o tempo e após 7 anos mais ou menos do  falecimento  de  meu avô, em 1958 e portanto em 1965, a velha "Igreja da Mãozinha" foi demolida. Meu pai lembrou-se então da "caixa" que conforme contava meu avô estaria  enterrada  nos alicerces abaixo do altar da igreja.Não foi difícil convencer o Sr. Alcides de Oliveira (o popular Alemão), prefeito na época a "dar buscas ao tesouro". O local já havia sido terraplenado e preparado para o início das fundações onde  seria construída a futura  igreja. Com a ajuda do engenheiro da prefeitura localizou-se o ponto onde estava o altar e deram início às buscas.Após ter-se escavado um grande buraco  finalmente veio à tona a tão esperada caixa de surpresas.Abrindo-se a mesma, surgiram então os documentos: atas, livros, moedas da época, cédulas, e até a própria caneta que serviu para a assinatura dos papéis encontrados.Ficaram  como lembrança para a família Freitas além dos documentos citados e que motivou esse relato histórico, uma lista de nomes dos doadores e das respectivas doações ofertadas pró-construção da Igreja. Num dos documentos encontrados lê-se o seguinte: (em grafia da época) "A commissao abaixo assignada da Santa Cruz da Rua do Amparo, tendo rezolvido a proceder os leiloes em beneficio das  obras  da  mesma Santa Cruz  foi de acordo que queda um dos membros da commissao ficou-se obrigado a fazer o leilão em todos os primeiros Domingos de queda um mes tocando o primeiro sorteio do primeiro de Agosto em diante,havendo sorteio recahio nos Snrs.Cristovam Alves Pinto (Agosto),Francisco  de Paula (Setembro), Manoel Gonçalves Lambaes (Outubro), Manoel de Freitas (Novembro),e José da Silva Franco (Dezembro). Itapira 9 de Julho de 1909. ". Em outro documento lê-se a seguinte petição:

 

       

 

O 1º doc. é um requerimento solicitando isenção de Impostos assinados por Francisco de Paula, Cristovão Alves Pinto, Manoel de Freitas(meu avô)

e Manoel Gonçalves Lambaes.

O 2º doc. é uma das páginas da Lista de Prendas e Doações Pró-Construção da Igreja

O 3º doc. se refere aà Comissão Pró-Construção da "Igreja da Maozinha"

 

 

Manoel de Freitas

Co-fundador da Igreja da Mãozinha

 

  "Ilmo. Sr.Intendente Municipal, Os  abaixo  assignados vem perante V.Sa.pedir agraça de dispensar-lhes do pagamento do imposto do espetáculo que deram hontem, o qual foi exclusivamente a benefício da Capella da Santa Crus da Maozinha. Pede  Deferimento:

 Itapira,10 de Junho de 1907. "Assinaram sobre um selo  de 1.000  reis  os srs.Francisco de Paula,Cristovam Alves Pinto, Manoel de Freitas e  Manoel Gonçalves Lambaes.O último documento é uma lista de nomes e doacões e tem o seguinte teor: "Festa a Gloriosa Santa Cruz.A commissao abaixo assignada vem respeitosamente pedir aos corações religiosos, um auxílio pecuniario, para a quadjuvação das despezas de uma festinha que se realisará  em 3 de Maio próximo fucturo, nesta cidade, na Capella da Mãozinha apparecida.

 

    Itapira 1 de Março de 1908.

 

A commissão:

 

Miguel Joaquim de Alvarenga, Jose Curado, e Jose da Silva Franco."Centenas de nomes constam dessa relação.

 

                                O achado desses documentos encerrou uma importantíssima fase histórica sobre a "Igreja da Mãozinha" e seria oportuno  render nossas homenagens àqueles que sem sombra de dúvida foram os co-fundadores da "Igreja da Mãozinha". Os documentos atestam fielmente que os Srs. Francisco de Paula,Cristovão Alves Pinto, Manoel de Freitas (meu avô paterno) e Manoel Gonçalves Lambais, contribuíram  de maneira importantíssima  para que o templo dessa Igreja fosse construído. Além desses nomes figuram também na comissão de arrecadação de prendas os de Miguel Joaquim de Alvarenga, José Curado Gonçalves e José da Silva Franco já citados acima.

 

 

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      FATOS CORRELATOS 

 

 -  Após a construção e a inauguração do templo da Mãozinha entre os anos 1909 e 1913 outro fato histórico iria marcar profundamente a sua existência.A polêmica fundação da Igreja Brasileira pelo Cônego Manoel Carlos de Amorim Correa (Padre Amorim) e que resultou na sua excomunhão pela  Igreja Católica e no seu tão precoce desaparecimento. Este é um assunto que iremos  abordar  oportunamente. Apenas  para completar o raciocínio e dar uma sequência sobre como ficou o templo da "Igreja da Mãozinha " sem o padre Amorim, agora primaz de sua recém fundada Igreja, abordaremos alguns aspectos legais que nortearam essa inusitada situação.Como vimos acima,o imóvel onde se instalou a referida  Igreja estava com suas  taxas e impostos sob isenção aprovadas pela Prefeitura Municipal. Todo ano novas petições para isenção dos impostos teriam que ser feitas pelos interessados. Como houve esse "cisma eclesiástico" o templo ficou sem a presença física do padre e consequentemente sem a respectiva petição e o pagamento dos impostos. Com o passar do tempo os impostos atrasados incluíram os "devedores" na dívida ativa municipal.Essa inadimplência se arrastou desde 1913 após o falecimento do Cônego Amorim até 1938, quando então a Prefeitura através de ação legal, executa os possíveis devedores. Não havendo devedores nominais de quem cobrar a referida divida e tendo o prédio do templo em questão permanecido inativo durante todo esse período, decidiu-se então através de uma  solução judicial legal e alternativa: "que o prédio onde se instalara a Igreja da Mãozinha fosse à leilão. Isso posto, o casal Francisco Cintra e D.Sizi Vieira arrematam o imóvel e doam-no à Diocese de Campinas, que colocam as coisas nos seus "devidos "lugares."

 

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  DOCUMENTOS

 

(resumo das cópias apresentadas abaixo)

 

A respeito da arrematação e da doação que o Cel. Francisco Cintra e sua esposa D. Sizi Vieira fazem a Diocese de Campinas, seria importante rever o teor das respectivas escrituras: No livro 81 - do segundo Cartório de Notas de Itapira, encontramos a seguinte citação: Escritura de doação de um prédio e respectivo terreno que fazem o Cel. Cintra e sua mulher à Soc.Feminina de Instrução e Caridade (Irmandade do Colégio  Sto. Antonio), no valor de C$500.000,00. Saibam todos que... no ano de 1952 aos 04 de Novembro...compareceram as partes...Cel. Francisco Cintra e sua mulher e a  Soc.Feminina de Instrução e Caridade, como ourtorgada donatária e finalmente a Fábrica da Igreja Matriz, representada pelo fabriqueiro Revmo.Padre Henrique de Morais Mattos...foi dito pelos outorgantes doadores o seguinte: a) que são senhores legítimos possuidores...pela transcrição número 8.515, fls.216 do Livro 3-O...de um prédio e respectivo terreno situados à Rua Ribeiro de Barros, 273 freguesia de Nossa Senhora da Penha...esse prédio e terreno vem sendo ocupado por um Colégio denominado "Santo Antonio", dirigido por membros da Soc.Feminina de Instrução e Caridade, a outorgada donatária: b )que a primeira mulher do outorgante varão D.Leocádia Rodovalho Cintra, por testamento cerrado e aprovado em 13 de JULHO de 1923, nas notas...recomendou a este  outorgante  varão que ao falecer deixasse a importância de C$300.000,00" para  ser  construída na cidade de Itapira uma IGREJA PARA SANTO ANTONIO"; c) que o outorgante dando início a recomendação de sua falecida primeira mulher,  já doou a importância de C$25.000,00, à Prefeitura Municipal desta cidade, para que com esse dinheiro ARREMATASSE em praça uma IGREJA PARTICULAR, próxima do referido prédio e terreno e os doasse a Fábrica da Igreja Matriz desta cidade de Itapira, para a instalação de uma igreja sob a denominação de Santo Antonio, como tudo se vê na escritura de 11 de Abril de 1946, lançado nas notas do segundo tabelião, desta cidade livro 74, fls.139 e registrada no Cartório de Registro de Imóveis local sob número 5262; d) que dando cumprimento...; e) que assim tendo feito a  presente doação, no valor de C$500.000,00 e de mais C$25.000,00...os  doadores  julgam ter atendido com liberalidade a recomendação de D,Leocádia Rodovalho...Segue- se o acordo entre as partes e assinam: o outorgante doador, Francisco  Cintra e sua mulher Maria Vieira Cintra; a outorgada donatãria Maria Villar  (pela Soc.Feminina de Instrução e Caridade); o anuente Padre Henrique  de  Morais Mattos;as testemunhas José Pereira da Silva e Antero de Freitas.

 

 

 

               

 

 

                                Uma outra escritura de venda e compra encontra-se no livro número 74, no segundo cartório de notas, lê-se o seguinte teor "Escritura de venda e compra de um prédio nesta cidade que faz a Prefeitura Municipal de Itapira à Fábrica da Igreja Matriz de Itapira, no valor  de  C$25.000,00. Saibam quantos virem...que em 1946 aos 11 dias do mês de Abril do dito ano...compareceram de um lado como outorgante a vendedora Prefeitura... representada por seu atual prefeito Sr. Antonio Serra...e por outro lado como outorgada compradora a Fábrica da Igreja Matriz, representada pelo seu fabriqueiro o Rev.Padre Henrique de Morais Mattos...foi dito que  por  aquisição muito anterior à Promulgação do Código Civil e em virtude de emissão nos autos da ação sumária de Comisso que moveu contra a IGREJA BRASILEIRA, transferida sob número 4857 fls.171 do livro 3-J do Reg.Geral desta comarca, é  senhora e legítima possuidora de um prédio ANTES denominado IGREJA BRASILEIRA situada a Rua Manuel Pereira esquina com a Rua Ribeiro de Barros...Assinam a presente escritura: o Intendente naquela ocasião - Antonio Serra; o Rev.Padre Henrique de Morais Mattos pela outorgada compradora, Fábrica  da  Igreja Matriz desta cidade e o antigo comprador (por arrematação em 14 de Setembro de 1938) e outorgante doador Cel. Francisco Cintra.

 

         

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  CRONOLOGIA

 

Podemos observar que a Igreja permaneceu inativa desde o falecimento do Cônego Amorim em 1913 até ser  reativada em 1946, quando juridicamente tudo se resolveu.Durante o período de inatividade o seu templo foi maculado e serviu como abrigo de animais, pessoas desocupadas e encontros furtivos.Apesar das bases da Igreja, através de D. Nery, bispo de Mogi Mirim ter enviado para assumir a paróquia em 1912 o sacerdote Oscar Sampaio, tal decisão não surtiu efeito, já que esse padre recém nomeado caiu na antipatia do povo e não pode continuar a sua obra.Somente em 31 de Agosto de 1958 é que se deu  a fundação da Paróquia com o nome de Santo Antonio.O padre  Matheus Ruiz Domingues foi nomeado primeiro vigário da recém criada paróquia, tendo realizado inúmeras obras assistenciais em nossa cidade e responsável direto pela  construção do atual templo da Igreja de Santo Antonio cujo início se deu em 25 de Julho de 1965 e a inauguração em 08 de Abril de 1973.Padre Matheus  faleceu, em 06 de Outubro desse mesmo ano, com 60 anos de idade, apenas seis meses  após ter visto sua obra inaugurada.Cumpriu-se portanto os últimos desejos  da  primeira mulher do Cel. Francisco Cintra - D. Leocádia Rodovalho.

 

 

O Arcebispo D. Paulo de Tarso Campos, procede à benção 

da pedra fundamental da nova Matriz de Santo Antonio em 1965.

 

              

 

Arcebispo Arquidiocesano de Campinas D. Antonio Maria Alves de Siqueira

 A Igreja de Santo Antonio atual e Padre Matheus Ruiz Domingues em 1973.

 

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     CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

 Após essas adendas, pode se entender de que forma a Igreja da Mãozinha, e depois Igreja Brasileira  se  estruturou legalmente para dar origem a Igreja  Santo Antonio que conhecemos atualmente. Vimos que o nome de "Igreja da Mãozinha" incomodava a hierarquia da  Igreja e Santo Antonio aos poucos passou a ser o Santo Padroeiro, que pelo menos desta vez,"descasou"(não sem alguma resistência dos fieis) a crença  cega, num cogumelo  ressequido, da fé  espiritual e racionalizada em um Santo canonizado. A partir de 1946, então, retomava o seu rumo os preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana deixando um saldo que não nos cabe polemizar. Quanto ao cogumelo em forma de mãozinha, (cuja crendice popular transformara num fetiche ou num amuleto milagroso naqueles idos do começo de século), desapareceu, acreditando  alguns que ainda esteja a sete chaves nos guardados de um possível colecionador anônimo ou algum descendente saudosista.Após a demolição da "Igreja da Mãozinha" surgiu então a Igreja de Santo Antonio conforme já enunciamos e outra fase histórica se iniciou.Provavelmente existe ainda por ai muita coisa  enterrada e que um dia certamente virá a tona e novos fatos ilustrarão a  história  de nossa cidade.Isso me faz lembrar o meu particular amigo  Ariovaldo Cavarzan no seu "Cavarzan - Il Cuore non Può Dimenticare", quando se viu angustiado e impotente para resgatar  "O acervo Perdido" de seus "antecessori". A canastra em cujo conteúdo descansavam documentos, fotos, álbuns, revistas, jornais, quadros, etc. ficou presa nos alicerces da Igreja N.S.da Conceição Imaculada construída na Vila São Vicente, onde antes era a chácara de propriedade dos velhos Cavarzan. Quiçá um dia parafraseando a máxima: "A Historia se repete" possa a  família Cavarzan resgatar os seus pertences que o presente teima em esconder.

                          

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      Sérgio de Freitas 12/03/1997

 

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