O "CARIOCA" - GRANDE FIGURA POPULAR -

Foto de "Carioca e sua filha Marina
Quem conheceu o popular "Carioca",vai com certeza se lembrar dele e quem não o conheceu sem sombra de duvida
irá aprender um pouco sobre sua vida. Filho de portugueses, seus pais Manuel Alves Pinto e D. Guilhermina chegaram ao Brasil em 1906. Dona Guilhermina estava grávida de seu primeiro filho: - Jose Alves Pinto,o popular "carioca ". Nosso personagem fora gerado em terras portuguesas mas nasceu no" Brasil na Urca, Rio de Janeiro.
Outros irmãos vieram depois: Américo,Beatriz (Cuca),Esperança, Veloso,Vladimir e Isaura. Ainda na sua primeira infância seus pais mudaram-se para São Paulo, no bairro de Santana e fixaram residência a Rua Olavo Egidio, 342.
Carioca cresceu ali em Santana e desde cedo, procurou serviços ligados a pintura e a eletricidade e passou parte de sua juventude e mocidade trabalhando aqui e ali fazendo pequenos "bicos". Sua vida era dividida entre seus pequenos serviços a família e a boemia. Foi garçom, porteiro de clubes. Era apaixonado por serestas e serenatas.
Gostava de tocar violão e cantar.A boemia o atraia e a vida noturna era uma constante na sua vida sendo fã número um de Nelson Gonçalves e de Orlando Dias. Já adulto e casado com sua primeira esposa entrou para a Polícia Civil. Sua esposa Helena deu-lhe três filhos: Marina, freira; Dalva, freira também e Estela que foi proprietária da Boate Santa Cecília em São Paulo. Por problemas conjugais separou-se de Helena e logo após desligou-se da Policia Civil. Voltou a residir com seus pais e a exercer atividades de eletricista e pintor de paredes.Algum tempo depois conheceu Marta Pereira da Conceição, (filha adotiva de um casal de libaneses, para os quais prestara serviços - Kalil Aber e Nagibe)),tendo se casado com ela em 1949. Dos 13 filhos que o casal teve 9 sobreviveram:Ana Marina, Aparecida,Maria Odila,Josefina, Lilian,Maria Marta,Aquiles,Fernando e Odila. Marina por ser a primeira filha era a que mais vivia agarrada ao pai, dedicando-lhe sempre o maior carinho e atenção.Via nele seu protetor e seu herói e desde pequenina era a que o acompanhava em seus afazeres profissionais, acabando por ajudá-lo em
todas as suas empreitadas. Passou-se o tempo e "Carioca", resolve, em busca de melhores condições de vida, mudar-se para o interior. Foi ai que em 1959, chegou a Itapira trazendo sua esposa e filhos. Marina já tinha de 8 para 9 anos. Desde que aqui chegou "Carioca", ganhou a simpatia das pessoas.Fixou residência na Rua Jose Pereira, perto do Asilo São Vicente e ali veria nascer seus outros filhos. Reiniciou suas atividades de pintor de paredes e de eletricista e começou a ficar conhecido por toda cidade.
Nesse mesmo ano de 1959, um fato inusitado aconteceu com "Carioca": numa tardezinha estando ele e sua filha Marina, pescando, e de repente sofreu um mal súbito e caiu dentro do rio. Após muita gritaria o socorro chegou tarde demais."Carioca" não respirava! Mesmo transportado por um caminhão da Usina N.S.Aparecida, para a Santa Casa. nenhum dos recursos médicos, pode devolver-lhe a vida.Das 18h ate as 23h o corpo permaneceu no Hospital sendo após liberado para o velório.
Já em sua residência. Marina era a que mais reclamava pela vida do pai agora inerte na sala de sua casa com o caixão sobre uma porta velha e apoiado entre duas cadeiras.O desespero era muito grande! Perdia-se naquele momento todos os sonhos daquela criança cujo pai adorava e venerava.Nada havia a fazer e daqueles olhinhos negros brotaram torrentes de lagrimas inconformadas desesperadas.Porque essa brutal separação se perguntava ela com um misto de dor e revolta?
Inconformada procurava nos olhos já embaçados de seu pai algum sinal de vida. Eram três horas da manhã quando Marina percebeu lágrimas nos olhos do cadáver. Gritou dizendo que seu pai estava vivo. Sob os olhares incrédulos dos presentes alguém concordou com a pequena Marina. Parece que o "Carioca" mexeu os olhos! Realmente o "cadáver" mexeu os olhos e logo após os abriu! Pânico total, correria e empurra-empurra."Carioca sentou-se no caixão cheio de flores.Quem não correu foi Marina e seus olhos agora brilhavam sob torrentes de lagrimas, de alegria. Seu pai estava vivo! Vivo! VIVO! Passado o susto, tudo voltou ao normal. "Carioca", não se lembrava de nada. Bem melhor! Esse fato ocorreu e só pode ter uma explicação: catalepsia, estado de morte aparente em que ficam temporariamente suspensos os movimentos voluntários e a sensibilidade exterior.
Mesmo que não seja isso, o fato e que para alegria da menina índia de olhinhos negros o seu pai "Carioca" ressuscitou para permanecer com ela por muitos anos ainda. Passado algum tempo apos o susto de sua "morte" "Carioca ", mudou-se com sua família para o Cubatão. Construiu ali na Rua Inglaterra, 72 ou 172 sua casinha com o fruto de seu trabalho e a ajuda de pessoas amigas. Continuou trabalhando na sua arte de pintor de paredes, faixas, muros cartazes de propaganda etc. Era muito querido por toda a população e seus préstimos profissionais eram muito solicitados pelos políticos da época nos tempos de eleição. Pintar muros, faixas, cartazes de propaganda, distribuir folhetos, cédulas dos candidatos era a sua especialidade."Carioca especializou-se tanto nessa área de "marketing", que seu nome ficou na história de Itapira da mesma forma que seus políticos.
Acompanhava os candidatos por todo lado, viagens, comícios e ainda orientava e dava conselhos: Não! dizia ele ao Caetano Munhoz, isso não fica bem assim. Fica bem dessa maneira. Sim! Dizia ele ao Antonio Caio, assim fica melhor...Dessa maneira ia ganhando a simpatia dos candidatos que lhe ajudavam financeiramente. Nunca foi um homem de posses. Muito humilde, sempre conviveu com as dificuldades principalmente porque tinha 9 filhos que precisavam de sua verve artística e da amizade que cultivava para poderem sobreviver. Sempre foi muito calmo, detestava a violência, tinha um semblante altivo que só encontramos naquelas pessoas de bem com a vida e que na sua humildade deixava transparecer toda a nobreza de sua alma.Era um " gentleman", boêmio, amigo, pai, e acima de tudo um ser huma-
no que passou por aqui e deixou saudades. Sua voz era roufenha, semi-melódica e sua boca parecia estar sempre assoviando.Tinha um ar de vaidade e orgulho que deixava transparecer, mesmo quando todo sujo de tinta e de chinelos, suado e com o cigarro a pender numa das laterais da boca. Quando alguém lhe perguntava: E ai "Carioca"? Tudo bem? Respondia sempre educadamente e com tanto cavalheirismo que a pergunta destoava da resposta. Sabia ser cavalheiro nas 24 horas do dia. Só que tinha uma coisa: Após as seis horas da tarde,"Carioca", metia-se num terno branco de linho, calçava seus sapatos bi-
colores marrom branco " tipo década de 20", dava um trato no cabelo com óleo ou brilhantina "Glostora" (substâncias usadas para cabelos na década de 60) e lá ia ele para a praça. Seus pontos preferidos: o "Bar do Odilon", o "Itapira Bar", o "Buraco da Onça" e mais lá em baixo perto da Igreja Santo Antonio o "Bar do Carlim Zacchi". O que fazia "Carioca" nesses pontos românticos e saudosistas de nosso tempo? Pedia ao garçom a sua bebida preferida: "Caracu" e juntamente com alguns tira-gostos, saboreava umas duas e até três " pretinhas ". Não era de beber muito. Gostava mesmo era de fazer tipo e o fazia muito bem. Apreciava o que era bonito e gostava da vida. Era um "bon vivant", respeitador do espaço alheio, honesto, carismático, sentimentalista (de pranto fácil), saudosista. Era uma figura! Era popular! Era uma FIGURA POPULAR, muito querida. "Carioca" também trabalhou como enfermeiro no Hospital Psiquiátrico Américo Bairral e foi colega do Emílio,do Heraldo Peres, (hoje diretor proprietário da Clinica Santa Fe), do Olívio Costa, do Benedito de Souza, (que tocava cavaquinho no conjunto musical "Todos os Ritmos " do Sanatório Américo Bairral), do Ailton de Haro e de muitos outros.." A primeira casa que executou serviços de pintura foi a casa do Dr. Aquiles Galdi. A família Galdi sempre o considerava muito e sempre tinham algum trabalho para o "Carioca".
O "CARIOCA" E O CIRCO -

Entrada "Bônus Escolar" do Circo Teatro Irmãos Almeida
Muitos se lembram ainda do Circo Teatro Irmãos Almeida, cuja lona era montada principalmente no "pastinho do Freitas" (tio de meu pai), ali onde hoje é o "Tola Cavalo" . O Circo era armado com a frente para a Rua da Penha e ficava temporadas de ate dois anos aqui em nossa cidade. Quem não se lembra do palhaço Fredô e suas peripécias com suas calças sempre caindo? E do "seu Renato", o Ventríloquo, cujos bonecos "Ditinho" e "Chiquinho", faziam-nos rir às gargalhadas quando respondia: "Cavuco", quando alguma pergunta duvidosa lhe era formulada? E ainda quem se esqueceu das comédias e dos dramalhões apresentados naquele pequeno palco? O Circo lotava todos os dias e as peças reprisavam semanas a fio dado o sucesso que faziam. Nós as crianças assistíamos quase que sempre todas as pecas apresentadas porque "varávamos" por baixo da lona do circo e íamos nos instalar no meio das" arquibancadas. Depois que nos assentávamos ali ninguém mais nos tirava. Assistíamos boquiabertos os dramalhões: " O Direito de Nascer","Mestiça","Marcelino Pão e Vinho", "O prof.Cruz" "Lampião e Maria Bonita" e muitas outras pecas. O Valter era sempre o gala e juntamente com sua esposa sempre faziam os papeis principais. Durante todo esse tempo era comum então os artistas do circo criarem laços de amizade com os moradores, principalmente, daquela parte da cidade.O "Carioca" residia ali bem perto do Circo e como era um homem dos "sete instrumentos ", fazia de tudo um pouco. Não demorou para que o Valter, confiasse nos préstimos profissionais do "Carioca", dando inúmeros quebra-galhos para fazer. Desde costurar lona de circo, limpeza do picadeiro, pintar o palhaço e ate pintar cenários para o teatro tudo era feito pelas mãos hábeis desse artista prodigioso. De certa feita, descobrindo-se o dom inato para a musica que tinha a sua filha Marina, lá vão os dois pai e filha, cantar no palco do Circo Teatro Irmãos Almeida. Casa lotada, microfone a frente."Carioca " com o pé esquerdo apoiado em uma cadeira e empunhando um violão. Marina toda arrumadinha, vestidinho colorido e um pandeiro com fitas tremulantes. A voz suave e canora de Marina, passando pelas guarânias: "India", "Segredo","Guarânia da Saudade","Traje Cigano"... ainda se faz ouvir sob a lona daquele Circo que marcou nossas inocentes almas infantis e a nossa retina...E o eco do passado retorna nessas linhas: Em cada coração, existe, uma paixão que é...segredo...! Ou ainda, esta saudade, que é de ti, me alucina, me desespera...Esta saudade, me tortura...
Marina ainda ajudava seu pai vendendo balas nos intervalos do espetáculo e aquelas economias permitiam-lhe diminuir um pouco as dificuldades financeiras que sempre se avizinhava do pai "Carioca". Não era sempre que havia emprego e todo dinheiro era bem vindo desde que fosse honesto.Havia que se fazer de tudo.Certa vez Marina fugiu com o Circo para desespero do "Carioca".Não duraria muito tal aventura dA menina traquina.Valter, consciencioso de seus deveres a trouxe de volta.Em matérias futuras abordaremos mais detalhadamente sobre a História do Circo Teatro Irmãos Almeida em Itapira.
Marina gostava tanto de cantar que chegou a pertencer a um conjunto musical formado por Gilberto Marcatti, Elsa Trevellin, e Antonio Rago,o mago do violão. Esse conjunto se apresentava na Rádio Clube de Itapira no programa "Juventude Itapirense" e era apresentado por Dacio Clemente aos domingos. Corria a década de 60. Apesar de tudo a família do "Carioca" era feliz.Marina por ser a filha mais velha, nela ficou centrada todas as angustias, dificuldades e responsabilidades que desde muito cedo fora ensinada a assumir. Com isso sua alma ficou um pouco presa e lhe tolheu muito de suas vontades, sonhos e vaidades. Marina casou-se em 1967 e mudou-se para Mogi-Guaçu onde reside ate hoje. Viúva com seus quatro filhos já
crescidos, trabalha como enfermeira no Posto de Pronto Atendimento do bairro de Santa Teresinha em Mogi Guaçu.Foi onde a encontrei. Hoje como medico desse postinho tive a grata satisfação de juntamente com ela relembrarmos esses momentos mágicos de nossa infância, onde as nossas almas livres e inocentes cada um ao seu jeito aprendiam as experiências que a vida apresentava. Valeu, menina Marina!
"Carioca" sofreu um derrame cerebral em 1982 ficando paralisado e dependente dos cuidados intensivos. Com dificuldade para tratamento e dos cuidados necessários precisou ser internado no Asilo Allan Kardec e ali faleceu em 1991 tendo sido enterrado como indigente no Cemitério da Prefeitura. Marina só soube da morte do pai 19 dias após
e armou o maior “sururu” por não ter sido avisada.Ela que o assistiu ressuscitar não pode vê-lo morrer.Ironia do destino.
D. Marta, a esposa de “carioca” ainda vivia em 1995 reside na Rua Inglaterra.Seus filhos, menos Ana Marina estão dispersos. Aparecida sabemos e falecida. Eu me lembro bem do "Carioca", porque eu o admirava muito, quando o via escrever aqueles letreiros de propaganda política nos muros que circundavam o armazém de meu pai que ficava na Rua da Penha,esquina com a Padre Ferraz. Lembro-me também dele com sua filha Marina quando ambos instalaram a antena de televisão do primeiro televisor que meu pai adquiriu.Desde aquela época não me lembro de tê-los visto mais.Passados 30 anos ou mais quando comecei recentemente a trabalhar em Mogi Guaçu reencontro a Ana Marina como enfermeira já formada e com quatro filhos. Através de nossas lembranças surgiu esta matéria, preito de saudade e gratidão. Falei a respeito disso também ao meu amigo Jose Benedito Gonzaga Cintra Junior. Passado uma semana Jose Benedito me aparece com uma "entrada" do Circo Teatro Irmãos Almeida,dizendo que a tinha encontrado no meio de seus papeis. Raridade e coincidência demais! Tal achado permitiu estampar nessa matéria uma das poucas senão a única lembrança da passagem desse histórico e saudoso Circo em nossa cidade.
Jose Alves Pinto, o popular "Carioca" que de carioca só tinha o apelido. Deveria chamar-se "Paulista", porque o era mais
do que qualquer um. Nem a ginga do carioca ele tinha.Adotou Itapira como sua terra e Itapira o acolheu. Apenas uma coisa:"Carioca" morreu duas vezes. Esta ultima definitivamente solitário e indigente.Se no seu primeiro velório todos seus amigos compareceram e foram "enganados",nesse segundo ninguém acreditou.Melhor porque assim ele continua vivo. Enfim "Deus não e Deus dos mortos mas dos vivos". Descanse em paz "Carioca". Você soube o que era bom para todos. Viveu e degustou a vida mas não passou em brancas nuvens. Deixou sim saudades, muitas saudades, eternas saudades!...
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