Resumo da entrevista, em Abril/08, para Felipe Van Deursen jornalista da Abril, para a Revista Aventuras na História, que me encontrou na Internet pelo meu trabalho sobre a crise do café de 1929. Felipe descobriu comigo que essa crise era a 2ª do café, pois no Império havia tido outra crise devastadora e minha família tinha participado das duas. Consta também a relação dos documentos de época que eu tenho até hoje. O bisavô do jornalista Felipe, se suicidou em 1933 por conta da crise.

 

A SAGA DO CAFÉ e a TRAJETÓRIA DOS MEUS AVÓS

Aníbal de Almeida Fernandes, Maio, 2008.

 

A trajetória da família Avellar e Almeida em Vassouras, RJ, e Arantes de Almeida em Araraquara, SP. Joaquim Rodrigues d’Almeida, meu avô: n. a 23/06/1866, f. a 25/02/1937, e Bernardina de Avellar e Almeida Carvalho de Arantes, minha avó: n. a 25/08/1869, f. a 18/07/1936, casados a 30/01/1889, em Valença, RJ, falecidos em Araraquara, SP.

Em Araraquara, SP, meus avós Joaquim e Bernardina, que já são a 4ª geração ligada ao café, desde meu 4º avô Manoel de Avellar e Almeida, chegam após uma trajetória geográfica/financeira emblemática, pois ela retrata exemplarmente a trajetória geográfica/financeira do café no Brasil, do começo do Império em 1822 até a Crise de 1929.

Café: Lavoura essa que, se dava a casaca tirava, também, a camisa.

 

Tudo começa com meu 4º avô, Manoel de Avellar e Almeida que é o Patriarca da família Avellar e Almeida de Sacra Família do Tingá e Vassouras (RJ), aí radicada desde o séc XVIII e que cresceu sempre ligada á cultura do café. Entre filho, neto e bisneto (ou seja, 3 gerações de titulares nos 67 anos de Império) Manoel teve 7 descendentes com títulos concedidos pelo Imperador Pedro II: Barão do Ribeirão, Barão e Visconde de Cananéia, Barão de Massambará, 2º Barão do Rio das Flores, Barão de Avellar e Almeida (cujo Brasão pode ser usado pelos descendentes, pois o título foi dado sul cognome este brasão tem o cafeeiro como arma heráldica), 1ª Baronesa do Rio das Flores e a 1ª mulher do Barão de Werneck.

Meus avós no fim da monarquia, a caminho de Araraquara, SP, por conta da devastadora decadência de Vassouras e de toda a região cafeeira fluminense, cujas terras estavam completamente deterioradas e não valiam mais nada, passaram pelo Rio de Janeiro (junto com os Barões de Muritiba (a Baronesa era madrinha de crisma de vovó) foram ao Baile da Ilha Fiscal, vovó com um vestido amarelo de seda de Macau e com um colar de ouro e esmeraldas, pois as senhoras deviam se vestir com as cores do Império). Em 1890, procurando por boas terras para o café, eles vieram para Araraquara, (SP), onde vovó, ao chegar, perdeu o 1º filho, provavelmente em conseqüência da mudança radical de situação de vida numa terra estranha e sem referências.

Perto da cidade compraram a fazenda Baguary (a venda do colar de esmeraldas ajudou, pois nessa época do Encilhamento provocado pelo Rui Barbosa a economia estava um caos completo e os antigos Barões na miséria) situada no distrito de Américo Brasiliense, sesmaria do Rancho Queimado e vovô voltou a plantar café que é o que ele sabia e gostava de fazer. Nos anos seguintes, com as boas rendas do café, o casal passa a ter filhos a cada 1,6 anos. Foram 12 filhos vivos no total: 6 homens (os meninos estudavam no Colégio São Luiz em Itu, eu tenho fotos de 1906) e 6 mulheres: (o 1º fal. 1890), 1891, 1893, 1898, 1900, 1902, 1905, 1906, 1907, 1910, 1911, 1912, 1914.

Os 2 1os filhos: Luisa, n. a 23/6/1891, f. a 29/02/1936 e Mário, n. a 15/7/1893, f. a 25/07/1958. Os 2 últimos filhos: Bernardino, n. a 23/06/1912, f. em 1958 e Orlando, n. 1914, f. em 1959.

A partir de 1915 vovô, que era um homem muito esperto, inteligente e perspicaz, deve ter pressentido alguma mudança econômica no ar, a médio prazo, pois o casal parou de ter filhos e, num movimento inteligente e estratégico, vovô mudou o seu enfoque econômico diminuindo bastante a quantidade dos pés de café plantados e passou também a criar gado e com o capital recebido na venda das safras/gado começou a comprar, terrenos, uma casa comercial com produtos para fazenda e o Grande Hotel de Araraquara que, em 1929, hospeda os oficiais que fazem manobra em Araraquara (eu tenho carta do general Alexandre Leal, Chefe do Estado Maior do Exército do Brasil a 4/11/1929, agradecendo a hospedagem). Todos os 6 filhos homens estudaram em cursos universitários: Mário (iniciou engenharia em Liège, Bélgica, eu tenho o diploma de 24/10/1913 quando interrompeu por conta da 1ª Guerra Mundial, se formou advogado a 7/12/1923, eu tenho o diploma do Largo São Francisco), Bernardino e Orlando se formaram em advocacia no Largo de São Francisco (SP) e Luiz (médico a 17/10/1935, eu tenho o diploma da Praia Vermelha) e José se formaram em Medicina na Praia Vermelha (RJ) e Joaquim abandonou o curso de medicina e cuidou da casa comercial.

1925: foi a última venda vantajosa da safra de café da Baguary no estertores finais da cultura cafeeira paulista e com o $$$ apurado:

>VOVÔ, tia Maria e tio Mário foram para a Europa ver a Exposição de 1925 em Paris e voltaram pela Espanha e Portugal onde ficaram em casa de parentes Rodrigues d´Almeida, que tinham uma bela casa apalaceada em Lisboa/Porto e empregados com libré.

>VOVÓ visitou Vassouras com alguns dos outros filhos e se assustou/amargurou com a terrível decadência em que encontrou as antigas famílias e sua dispersão perdida pelo mundo.

Até 1925 as filhas vestiam-se para as festas com roupas que vinham de Paris e os saraus eram com champagne e bons tintos franceses, com boas conversas e música, os rapazes tocavam violino e as moças tocavam piano, num arremedo de corte no sertão. A porcelana para uso diário era Vista Alegre branca (eu tenho a sopeira e a molheira), que vinha de Portugal às dezenas, uma vez que havia um contrato de fornecimento direto para vovô, sempre com o monograma gravado da Família, pois eram 12 filhos e a quebradeira era enorme. A porcelana de festa era, Limòges=francesa (eu tenho o aparelho de chá que a tradição oral familiar diz que foi usado pela Princesa Izabel) e Maestricht=holandesa (eu tenho a sopeira). Os cristais eram Saint Louis, franceses (eu tenho várias peças).

 

1929 e durante os anos seguintes até 1938: a partir de 1925, o café já estava encalhando pela superprodução e chegou um momento que não havia mais onde estocar as safras colhidas nas fazendas e pagar pelos silos de armazenagem era muito caro, pois não havia nenhuma perspectiva de venda com a terrível crise mundial, a solução foi queimar as safras sem comprador, para desespero dos fazendeiros que ficam na miséria tendo que vender as jóias das esposas para sobrevivência e alguns se suicidam (eu tenho várias fotos sufocantes e emblemáticas de minha família assistindo a queima do café da fazenda Baguary em 1937).

Apesar de estar com uma situação econômica já bastante diversificada Vovô foi se amargurando com a situação geral sem futuro e esperança que refletia o total desemprego, a crônica falta de dinheiro e a ausência de possibilidade de melhoria econômica gerando o desespero na sociedade e vovô vivendo pela 2ª vez o mesmo terrível descalabro econômico/social que vivera na mocidade em Vassouras/Valença com a terra ficando sem nenhum valor e os antigos Barões do café na miséria, começou a definhar, pois tinha a atividade agrícola como seu principal interesse.

Nessa fase pós crash de 1929 onde não havia dinheiro na praça, a família rapidamente se adapta/insere no contexto de uma realidade de fazenda deficitária e sem futuro, casa comercial com pouca venda (gerenciado pelo filho Joaquim), e Hotel com pouca procura (gerenciado pela filha Alzira e o marido), alguns dos filhos estavam trabalhando, tio Mário tinha a melhor banca de advocacia de Araraquara e era o presidente da 5ª Sub-Secção da OAB, (entra na política, foi Prefeito e vereador a partir de 3/4/1936, tenho o diploma, quando ele morreu o Scalamandré Sobrinho faz constar na Câmara de São Paulo, a 29/7/1958, um voto de pesar á família, eu tenho cópia do requerimento nº 486/58), tio Luiz mora no Rio e é tisiologista conhecido, assistente do Prof. Mac Dowell, e faz experiências com o uso do Raio X que, por ser no início da técnica, não tem proteção e ele morre de leucemia em 1948, tio José terminando o curso de medicina vai ser médico do serviço social do Estado e depois se estabelece como professor titular da Faculdade de Odontologia de Araraquara, (tendo por assistente Mariquita Vilaça Correa Leite, mãe de Ruth Cardoso, ex primeira dama), algumas filhas davam aulas de francês e piano, para manter os 2 irmãos mais novos, Bernardino e Orlando, ainda estudando advocacia no largo de São Francisco, onde Rafael Luís Pereira de Souza, Bacharel em Direito (filho do Washington Luiz 13º Presidente do Brasil) era colega de Orlando Arantes de Almeida que foi padrinho do filho dele, Caio Luiz. Rafael freqüentava a casa de meus avós em Araraquara e está numa das fotos da queima do café.

Luisa, a filha mais velha, morreu em Fevereiro de 1936, vovó em Julho de 1936 com esses 2 terríveis golpes, quase simultâneos, e como a situação econômica estava muito deteriorada, vovô desabou e em Fevereiro de 1937, 1 ano após a morte da filha Luisa, vovô morreu de desgosto.

Após a morte de meu avô, os 6 filhos homens muito abalados com a sucessão de fatos trágicos/graves na família se reuniram e chegaram à conclusão que, com as terras sem valor, o café era uma perda de tempo sem recuperação possível e impediram que os cunhados continuassem com a fazenda Baguary (eu tenho cópia do formal de Partilha de 1937, onde ainda registram-se 90.000 pés de café e safra de 2.300 arrobas) e a venderam porteira fechada para um árabe que pagou a compra com a madeira que mandou cortar das matas da fazenda que hoje está em outras mãos e é fazenda de cana como quase toda a região antes produtora de café.

A saga cafeeira que começara em 1780 com os Avellar e Almeida, em Vassouras RJ, terminou definitivamente para os Arantes de Almeida com a venda da fazenda Baguary em Araraquara SP, em 1938, e nenhum descendente de vovô voltou a se relacionar com a cultura cafeeira que, desde o séc. XVIII, ao longo de 158 anos, esteve profundamente inserida na atividade dos vários ramos da família.

 

Meu caro jornalista, agora um orgulho e um sonho:

1º) O meu orgulho: para vc. bem entender esse meu orgulho, conto um pouco de história:

O Império durou apenas 67 anos no Brasil (1822-1889) o que quase equivale a 3 gerações. Nesses 67 anos os 2 Imperadores concederam 1211 títulos de nobreza a maior parte para fazendeiros de café (os títulos não são hereditários, pois acabam com a norte do titular) e foram concedidos apenas 238 brasões (que são hereditários, pois podem ser usados pela família quando o título foi dado sul cognome que significa com o nome da família que o Imperador queria honrar). Agora vem o meu orgulho. Um neto do meu 4º avô foi feito Barão de Avellar e Almeida e conseguiu brasão e nele colocou com orgulho o pé de café que só aparece em mais outros 4 brasões em todo o Império e esse Brasão por ser de título sul cognome pode ser usado por mim, por minha filha e por meus netos:

 

 

 

BRASÃO AVELLAR E ALMEIDA

Carta de Brasão, registrada no Livro II, fls. 9/11, do Cartório de Nobreza e Fidalguia do Império do Brasil concedida a 22/11/1881

Ao BARÃO de AVELLAR e ALMEIDA Decr. de 7/1/1881

►A “Banda” diagonal vermelha com 3 estrelas de prata, postas em pala, representa trabalho árduo o que se confirma na “Abelha”, à direita, simbolizando operosidade.

►O “Cafeeiro”, à esquerda, mostra a atividade do Barão de Avellar e Almeida Laurindo de Avellar e Almeida que era fazendeiro de café como toda a família AVELLAR e ALMEIDA.

►A divisa em latim VIRTUTE ET HONORE significa VIRTUDE e HONRA, que é uma confirmação dos valores éticos e sociais da família Avellar e Almeida.

 

O meu sonho: apesar de não termos mais nenhum contato com o café desde 1938, minha filha se casou com um rapaz cuja família tem fazenda de café e gosta do que faz, assim sendo, eu tenho uma fantasia recorrente que mostra minha filha e meu genro andando pelo cafezal na época de colheita tendo entre eles com as mãozinhas dadas o meu neto(a) e esta criança será 6ª neta de Manoel de Avellar e Almeida (meu 4º avô) e que, graças ao pai dela e ao seu bisavô paterno (Geraldo Alonso) será a 8ª geração contínua ligada à cultura cafeeira, ou seja, esta criança terá o café brasileiro no sangue!!!!!!!!!!!!

 

INFELIZMENTE A ABRIL COM FARO JORNALISTICO, POR CONTA DO AUMENTO CATASTRÓFICO DO DESASTRE ECONOMICO DAS BOLSAS E A PIORA DA SITUAÇÃO MUNDIAL DE ABRIL PARA JULHO, MUDOU O FOCO DO ASSUNTO E DE CRISE DO CAFÉ BRASILEIRO DO IMPÉRIO E REPÚBLICA (TENDO A CRISE DE 1930 COMO FUNDO) PUBLICOU NA EDIÇÃO 60 DE JULHO DE 2008 DE AVENTURAS NA HISTÓRIA (LAMPIÃO NA CAPA) UM ARTIGO ONDE O PRINCIPAL É A CRISE DE 1930 (E A MINHA HISTÓRIA DA CRISE DO CAFÉ DO IMPÉRIO PARA A REPUBLICA FICOU REDUZIDA A UM SIMPLES QUADRO ONDE APARECE O SUICIDIO DO BISAVÔ DO JORNALISTA E UMA DAS FOTOS DO CAFÉ DA FAZENDA BAGUARY PEGANDO FOGO NO HORIZONTE).