Heráldica

ANIBAL de ALMEIDA FERNANDES, FEVEREIRO, 2007

►►►HERÁLDICA: ORIGENS, SIMBOLOS, DESENHOS e sua presença no séc. XXI.

Tapeçaria de Bayeux

The Normans seem to be getting the upper hand as the battle continues. Many more soldiers die, one appears to be having his head cut off. On the right is the best known scene in the Tapestry: the Normans killing King Harold. But how is Harold killed? He seems to be shown twice: first plucking an arrow from his eye, and then being hacked down by a Norman knight. The tapestry is difficult to interpret here, but the second figure is probably Harold being killed.

1o) Sec. XI, Tapeçaria de Bayeux: pg 10 é considerada o 1o registro heráldico na história medieval, ela mostra a invasão normanda, a batalha de Hastings de 1066 na Inglaterra, e apresenta os cavaleiros usando escudos decorados com desenhos geométricos e dragões e umas 30 bandeirolas (banners) amarradas às lanças. Supõe-se que sejam símbolos hereditários vindos do sec. IX, de descendentes de Carlos Magno. Tudo isso, porém, é matéria controversa e sem evidencias documentais históricas. Na Inglaterra, apenas a família Mallet tem um brasão com um símbolo parecido com uma das bandeirolas da tapeçaria de Bayeux e sabe-se que William Mallet esteve na batalha de Hastings. No mais, é apenas suposição histórica, não é heráldica documentada.

Atenção: hoje em dia, se suspeita da autenticidade dessa famosa tapeçaria de Bayeux, pois as características históricas representadas na tapeçaria, tanto nas roupas como nos hábitos de comer,  parecem ser de época muito mais recente do que o ano de 1066.

Um fato que apóia essa suspeita é a descrição documentada de Ana Comeneu princesa bizantina que comenta a passagem por Bizâncio, na 3a Cruzada em 1096, de Luiz VII de França e Eleanor de Aquitania ela descreve o escudo do rei de França apenas como polidíssimo e muito brilhante, mas não faz nenhuma menção de algo pessoal ou de qualquer símbolo heráldico gravado no escudo real.

2o) Sec. XII: Henrique 1o da Inglaterra concedeu a seu genro, Geoffrey Plantageneta (Anjou), em 1127 um escudo azul, decorado com pequenos leões de ouro, é este o 2o registro heráldico documentado na história pg 13. Na catedral de Le Mans, a tumba de Geoffrey, fal. cerca de 1151, mostra esses leões em seu escudo. Seu neto, William Longespee, Conde de Salisbury, fal. cerca de 1226, tem um escudo idêntico ao do avô em sua tumba na catedral de Salisbury, ou seja, esta repetição do mesmo escudo atesta a hereditariedade no uso das armas do escudo pela mesma família.

►►►Em 1170 tem-se a 1a referencia aos torneios entre os cavaleiros, ela foi feita por Chrétien de Troyes. Nessa época, aparecem os heraldistas (reis de armas) que são os que organizam os torneios e anunciam os participantes porem não se tem a informação precisa se eram eles, também, quem desenhavam os brasões de identificação dos cavaleiros participantes.

 3o) Sec XIII,

Temos o Herald’s Roll pintado entre 1270 e 1280: que é o 3o registro heráldico mais antigo e consiste de 195 brasões dos quais, 43 contém o leão e temos também  a flor de lis como mostra a figura pg 16.

Há uma quantidade de selos de identificação (carimbos) pg 12 que substituíam a assinatura dos cavaleiros uma vez que poucos sabiam escrever, e essa deficiência talvez seja a verdadeira explicação para o desenvolvimento desses símbolos que passam a ser usados pelos descendentes desses cavaleiros e, graças a essa continuidade de uso, estabelecendo a hereditariedade dessas armas.

Nesta mesma época, séc. XIII, a heráldica está se desenvolvendo no Japão e apesar da distancia, e total desconhecimento entre as 2 culturas, apresenta marcantes semelhanças.

Os cavaleiros japoneses são os famosos samurais e, cada um tem o seu emblema pessoal, o mon com desenhos de altíssima qualidade e beleza gráfica pg 17 e que era cuidadosamente protegido e governado por leis e regulamentações heráldicas de controle.

No sec. XIII há um grande desenvolvimento da heráldica como conseqüência dos torneios de cavalaria que são o grande acontecimento social da época, algo como uma olimpíada, que infestam os 4 cantos da Europa e exigem a clara identificação heráldica de cada desafiante.

Na França e nas Ilhas Britânicas, aparecem símbolos para cada pessoa e cada ramo da mesma família. Enquanto que as famílias no leste europeu usam as mesmas armas como uma forma de estabelecer a identificação das diversas clãs.

4o) Sec. XIV:

Merece destaque o Jenyns’ Ordinary pg 18 pintado cerca de 1380, que é o 4o registro heráldico. Ele mostra a preferência pelos leões nas armas medievais o que deveria dificultar muitíssimo a identificação no campo de batalha pela semelhança entre os escudos.

Aparecem os suportes dos brasões, com animais pg 75 ou figuras humanas pg 105 amparando os escudos usados pelos “knigth” (cavaleiro).

O termo “knigth” identifica a posse da terra pelo cavaleiro, terra essa que foi dada pela Coroa (soberano) como pagamento por serviços prestados por seus ancestrais que caracterizam os filhos d´algo os fidalgos.

Aparecem os timbres, pg 24 sobre os elmos, que dá destaque visual aos cavaleiros nos torneios facilitando a identificação dos adversários e tais timbres passam a ser adicionados aos brasões pg 19.

No sec. XIV aparecem tratados sobre heráldica e o mais antigo é o De Heraudie de autor desconhecido, mas se supõe que ele fosse um rei de armas.

5o) Sec. XV

Dessa época é o Fenwick Roll, pg 95, pintado no reinado de Henrique VI, da Inglaterra que é o 5o registro heráldico e mostra como, 200 anos após o início da heráldica, o desenho heráldico tornou-se mais complexo e requintado.

É muito importante considerar que neste século a organização social européia deixa o feudalismo e evolui para as monarquias centralizadas, e os próprios Reis passam a controlar o armorial e estabelecem suas próprias autoridades heráldicas (rei de armas) para o rígido controle e organização das armas e brasões dos súditos .

Na Inglaterra a Coroa estabelece o Colégio Inglês de Armas, em 1484, que tem a prerrogativa de dar, confirmar e regular as armas e brasões dos cavaleiros ingleses o que influencia toda a heráldica da Europa com os seus reis de armas incrementando as armas que adquirem o aspecto de obras de arte como os brasões feitos por Thomas Wriothesley (1505-1534), pg 96. Os reis de armas ingleses desse período analisaram todas as armas, selos e timbres para compatibilizar, e confirmar, toda essa simbologia heráldica e os novos brasões e anéis de sinete já tem incorporados esses detalhes, sendo que os suportes são de uso restrito apenas aos pares do reino (companheiros do Rei na formação do reino).

O uso de quartéis no escudo pg 93 parece ter sido introduzido na Inglaterra por Eleanor de Castela, mulher de Eduardo I

É no começo da dinastia Tudor, na Inglaterra, com o famoso Henrique VIII, fal. 1547, que a heráldica atinge o seu período mais rico e mais criativo usando os desenhos geométricos da Idade Média, porém, incorporando coisas do mundo aos novos brasões, pois se inspiram na fauna e na flora, e até em monstros, tudo isso aparece no soberbo Heraldisher Atlas de Herr Ströhl.

Por séculos as armas armoriais foram propriedade dos senhores feudais e serviram como marcas de qualificação, distinção e identificação para toda a sociedade estamental (onde a origem e antiguidade do nome era o que distinguia o indivíduo) que se mantiveram até o século XIX e hoje em dia, apesar de não mais ter uma conotação de casta social ou militar, ainda dão prestígio a grupos ou instituições.

6 ) Outros Paises:

A Holanda e a Suíça são inigualáveis em seu controle da heráldica e é marcante o orgulho com que as famílias holandesas respeitam/cultivam os seus brasões.

A Itália tem uma heráldica que reflete a dinâmica conturbada da sua história com sucessivos invasores: alemães, franceses, espanhóis, austríacos, que deixaram as suas marcas na heráldica italiana. Mas apesar de todas essas influencias, os italianos criam um brasão típico, em forma de amêndoa ou de cabeça de cavalo. As famílias que tem papas entre os seus membros incorporam a tiara papal e as chaves cruzadas em seus brasões.

A Hungria tem uma heráldica semelhante à da Áustria e Alemanha, com 2 particularidades: a 1a é o uso de símbolos associados às guerras com os turcos (entre os sec. XV e XVIII) que é um orgulho nacional e a 2a é a escolha de armas extravagantes para os brasões.

A Polônia é diferente de toda a Europa por incorporar em suas armas, signos rúnicos pré-heráldicos.

A França tem uma rica heráldica no ancien regime (até a Revolução de 1789). Luís XIV regulamentou rigidamente o uso dos brasões cobrando de 20 a 40 libras conforme o grau de nobreza dos brasões que se manteve até ser interrompido em 1789. Porém 15 anos após, ressurge com força a nova heráldica imperial  de Napoleão que é marcada por armas e detalhes das campanhas napoleônicas.

7o) Fauna:

Os animais mais usados são:

►►O leão é o animal mais usado, e importante, ele é o 1o registro heráldico histórico, aparecendo no escudo de Geoffrey Plantageneta em 1127. Entre os 195 escudos relacionados no Herald’s Roll, do sec. XIII, aparecem 43 leões, 3 águias, 3 peixes, 1 urso, 1 coruja, 1 grifo e 1 cegonha. Os dois primeiros reis ingleses a usarem a heráldica foram Ricardo Coração de Leão, fal. 1199, e William I, o Leão da Escócia, fal. 1214, e ambos têm leões em seus brasões.

O 1o grande Selo Real é de Ricardo da Inglaterra que é registrado historicamente em 1189 com 1 leão como arma, em 1195 aparece outro selo real com 3 leões. No séc. XIII começam as regras para normalizar as armas armoriais nos brasões, expl: o leão tem que estar sobre 2 patas e a cabeça de perfil, porém houve um problema com os leões do brasão real inglês que estão sobre 4 patas e com a cara para a frente e foram, por isso, batizados de leopardos da Inglaterra. Porém, no séc. XV, os reis de armas concluíram que o leopardo se origina do cruzamento adúltero do leão com o pardo, (provavelmente um cheetah), e, portanto não é digno/condizente para o rei da Inglaterra usar 3 bastardos em seu brasão e, por isso, os leões da Inglaterra passam a ser chamados de leões em guarda, para distingui-los dos leões sobre 2 patas.

►►A águia (pg 30) é a mais importante das aves, é muito usada na Idade Média e tem nos céus a mesma importância que o leão tem na terra.

►►O golfinho (igual ao delfim=pg 101), era muito usado e sua importância nos mares, equivale à do leão em terra e à da águia no céu. Guarnece o brasão do herdeiro do trono francês, o Delfim de França.

Outros animais:

Em 1510 aparece no brasão de Robert Lord um tragopam, pg 36 que é um pássaro himalaio que apresenta uns pequenos chifres, e não se tem idéia do porque de tal excentricidade??? em pleno séc. XVI.

As serpentes pg 36 aparecem na heráldica da época Tudor, porém outros répteis são raríssimos.

Em 1552 aparece um peru, pg 37 adornando o elmo do brasão de Robert Cooke of Midham. Nota: o peru veio da América para a Europa com os espanhóis e, para a Inglaterra com Catarina de Aragão.

Em 1591 aparece no brasão de John Brown of Spexall uma ave do paraíso, pg 37 e ela é desenhada sem pernas (pois voava eternamente .... daí, paraíso).

A pantera aparece no brasão de Jane Seymour 3a mulher de Henrique VIII, morta em 1537, pg 75.

O tigre pg 69.

O castor pg 32 que reza a lenda que, quando perseguido, se castra a si próprio com seus dentes (parecendo saber que os seus testículos são muito valorizados para o tratamento médico).

O elefante, pg 81 freqüentemente com um castelo nas costas.

Os insetos, aracnídeos e crustáceos, foram de uso muito limitado na época medieval e no período Tudor, com algum destaque para: o gafanhoto (pg 43) e o besouro (pg 43).

Os camaleões (pg 41) e os sapos (pg 42) esses, sempre de perfil ou de frente. Uma questão intrigante sobre sapos como arma armorial é o brasão do rei Faramundo, ancestral dos reis merovíngeos (ele é considerado bisavô de Clovis Meroveu, séc V d.C., fundador da 1a Dinastia real de França), que mostra 3 sapos em um campo negro pg 31. A dinastia merovíngea dá muita importância aos sapos dando-lhes qualidades místicas e vem dessa época as histórias de fadas com o sapo virando um príncipe no final. Vem daí, também, o costume dos flamengos na guerra dos 100 anos, chamarem os franceses de froggy, (sapo). Aqui se pode intuir uma possibilidade histórica, pois como o sapo vive nos rios, entre as Íris aquáticas, pode haver nisso uma explicação para a evolução do sapo do brasão de Faramundo, para as flores de lis do brasão real de Luiz VII de França, da 3a Dinastia Real de França, 700 anos depois (item 10).

O cavalo pg 112 aparece muito raramente na heráldica, pois era considerado um animal subserviente e, portanto, sem nenhum apelo de bravura.

O macaco pg  92.

O antílope pg  68.

O arminho, pequeno rato da Armênia, (branco com a cauda negra) é muito usado desde o início da heráldica no séc. XII, principalmente na Bretanha.

O veiro (vair) é um gato africano, cinza azulado, com a pele usada nos mantos reais, e muito usado na heráldica a partir do séc. XII e aqui cabe uma nota de amplo interesse:

“houve um erro na tradução da antiga história da Cinderela e os seus famosos sapatos de Vair (pele de veiro) foram erroneamente traduzidos por Verre (vidro) e se consagrou esse erro grosseiro, como os famosos sapatinhos de cristal !!’

Nos séc. XVI, XVII, XVIII, as armas armoriais são muito convencionais, usa-se muito o lobo, o urso e o falcão. A raposa, por ser pouco nobre em suas qualidades, quase não é usada.

No séc. XX aparecem o salmão, a truta, o peixe papagaio, o peixe voador e o peixe sol.

O escorpião é muito usado no séc XX. A aranha está ausente das armas armoriais, apesar de fazer uma correspondência com o nome de família Web ou Webber.

.8o) Flora:

Os reis de armas começam a utilizar as flores para adornar as Cartas que outorgam os brasões aos cavaleiros a partir do séc. XV (pg 55).

A Rosa, é a mais importante arma floral na heráldica inglesa, sendo correspondente ao

leão na terra, à águia no céu e ao golfinho na água. A rosa, na cor dourada, foi trazida para a heráldica inglesa por Eleonor de Provence, mulher de Henrique III (1216-1272), e logo foi adotada pelo filho mais velho, o futuro rei Eduardo I. O 2o filho do casal, o Conde de Lancaster, usou também uma rosa, porém de cor vermelha para se diferenciar do irmão, Eduardo I. A rosa vermelha se incorporou ao condado de Lancaster e, posteriormente, ao ducado de Lancaster. Nesse meio tempo aparece a rosa branca, adotada pela família Mortimer, de quem descende Ricardo Plantageneta, duque de York, que disputará o trono inglês na sangrenta guerra das rosas entre a rosa branca dos York e a rosa vermelha dos Lancaster.

Os trevos de 4 ou 5 folhas são conseqüências da rosa na heráldica e podem ser considerados como sendo a forma simplificada da rosa.

A flor de lis (pg 50) é a mais importante arma floral na heráldica francesa e é objeto de uma grande controvérsia, pois aparece nas armas de várias famílias, sem nenhuma ligação entre si, em toda a Europa Ocidental. A flor de lis veio para a Inglaterra quando Eduardo III (1327-1377) reivindicou o trono da França e em 1337 as colocou em seu brasão dividido em quartéis com os leões ingleses e as flores de lis francesas, esse brasão real inglês se manteve até 1801. A tradição diz que, Clóvis, Rei dos Francos, (fundador da 1a dinastia real francesa, a Merovíngea, no séc. V, d.C.) recebeu a flor de lis como um presente divino por sua conversão ao catolicismo em 496. Porém, a versão mais provável é que, tendo sido encurralado pelos godos próximo ao rio Reno, em uma batalha decisiva para seu futuro, percebeu que, num trecho do rio, florescia uma grande quantidade de Íris, o que era sinal que o rio dava pé para o exército atravessar e escapar para a segurança e, como disso resultou em sua vitória, Clóvis adotou a Íris, na forma da flor de lis, como sua arma e insígnia. No séc. XII Luiz VII associa a flor de lis ao brasão real da França, o que pode ser uma correspondência ao seu nome, flor de Luiz. Dizem também que Luiz VII, na 3a Cruzada, 1096, ficou atraído pela flor de lis islâmica e a usou em seu brasão, porém isso é considerado muito improvável, pois o Islã não contribuiu em nada para a heráldica européia, com exceção do manto e o cordão de cabeça estilizados que adornam todos os brasões e que podem ser interpretados tecnicamente como uma proteção para o elmo contra o calor do sol mediterrâneo.

As árvores são raríssimas na heráldica até 1700. No Smith’s Ordinary, que é um registro heráldico do séc. XVI aparecem 900 brasões e, apenas 7 árvores inteiras aparecem entre as armas. As árvores quando aparecem estão, no geral, limitadas a uma correspondência com o nome de família. Porém a partir do séc. XVIII aumenta o uso de árvores como armas armoriais.

Temos no séc XIX no Brasil o cafeeiro no brasão de 5 famílias brasileiras dos Barões de Avellar e Almeida (brasão abaixo), Bemposta, Vargem Alegre, Silveiras e do Visconde de Aguiar Toledo.  

             

Brasão da família Brasileira Avellar e Almeida, concedido ao Barão de Avellar e Almeida a 2/11/1881 e registrado no Livro II, fls 9/11 do cartório de nobreza e Fidalguia do Império do Brasil.

 

As folhas (pg 54) tiveram pouca importância na heráldica medieval, porém a partir de 1700 elas aparecem com maior intensidade. Hoje em dia é muito usada a folha do maple canadense, que fora em 1860, incorporada ao brasão do Regimento do Príncipe de Gales no Canadá e depois é posta na bandeira do país.

As frutas são reservadas para quando há coincidência entre elas e os nomes de famílias, com 2 exceções:

Romã: que, com suas numerosas sementes, alude às sementes do saber.

Avelã: já que a sua árvore tem uma conotação pré-cristã, pois a aveleira é

           considerada a árvore do discernimento na época pré cristã.

Os vegetais foram ignorados na heráldica com exceção do alho poró de Gales, que remete às cores da libré da dinastia Tudor, verde e branca, que são uma referencia a Llewelyn, o Grande, vestido em roupas de seda verde e branca. Mais tarde Eduardo, o Príncipe Negro, ordena que se façam uniformes e chapéus bicolores, em verde e branco, para o seu exército galês no que parece ter sido a primeira vez, na história de guerra européia, que um exercito combateu uniformizado. Apesar do alho poró ser descrito como o emblema nacional de Gales ele aparece, apenas, no tempo dos Tudors.

Há, também, a mandrágora (pg 56) que teve um limitado interesse, pois considera-se que a forma da raiz parece com a figura humana e quando é retirada da terra emite um ruído, como um guincho, que enlouquece quem o ouve.

9o) Monstros:

O uso de monstros nas armas armoriais deve ser creditado principalmente à literatura medieval sobre monstros que era baseada num trabalho de Physiologus que, numa data incerta entre o séc. II e o sec. V d.C., escreveu um livro sobre monstros sem diferenciar fatos reais de fantasias imaginárias o que fez com que os leitores aceitassem o grifo (pg 73) e o unicórnio (pg 63) como animais tão reais como os que os cercavam na vida real.

O unicórnio, que é popular nos séculos mais recentes, é uma raridade na heráldica medieval, por ser ligado à imagem de Cristo e o seu uso era considerado uma blasfêmia pelos primeiros reis de armas. Os tais chifres de unicórnio que transitavam pelas cortes européias são, provavelmente, originados do chifre espiralado da pequena baleia narval que habita o Ártico que é de fino marfim. Esse chifre (foto NGM) era considerado a mais forte proteção contra o veneno e a doença e há séculos tem fascinado e intrigado a humanidade. Essas presas, de até 3 metros de comprimento, foram vendidas como chifres de unicórnio em eras passadas, geralmente por um valor equivalente a várias vezes seu peso em ouro, já que lhes eram atribuídas propriedades mágicas. No século XVI, a rainha Elizabeth I recebeu uma dessas presas avaliada em 10 mil libras esterlinas que equivalia ao preço de um castelo. E uma lenda austríaca dá conta de que o imperador Carlos 5º pagou uma grande dívida nacional com duas presas do animal. Há duas teorias para a origem do unicórnio:

1a: vem de um tipo de antílope do deserto árabe chamado oryx.

2a: vem do rinoceronte indiano.

Uma lenda medieval que ensina como capturar um unicórnio: para isso é necessária uma virgem, de preferência nua, que vai para a floresta sozinha e aguarda a chegada do unicórnio que virá até ela, deitará a cabeça em seu colo e a seguirá para onde ela for.

O leão e o unicórnio brigam entre si e a origem dessa inimizade é mitológica, pois o leão é o símbolo do sol um deus masculino dos povos indo-europeus, e o unicórnio é o símbolo da lua, uma deusa feminina para esses mesmos povos que, na origem dos tempos, eram governados por um regime matriarcal e usavam o unicórnio em suas moedas e selos sempre conjugado com a lua crescente. A identificação do unicórnio com uma deusa, pode ter gerado a lenda medieval da virgem que o captura e o cristianismo usou essa lenda e adaptou-a, identificando a virgem com a Virgem Maria e o unicórnio com Cristo.

Os monstros foram usados, ocasionalmente, no início da heráldica, porém a partir do séc. XV, com a necessidade de prover animais como suportes para os brasões, os monstros se transformam na principal fonte  artística de suportes para a heráldica.

O grifo foi o 1o monstro a ser usado, aparecendo no selo de Ricardo, Conde de Essex, em 1167. O bestiário medieval explica que o grifo tem o tamanho e a força de 100 águias e tem a competência de apanhar, e carregar, um touro em cada garra. O grifo inicial (pg 59) da heráldica era uma figura composta, numa combinação simbólica entre a águia, rainha das aves, e o leão, rei dos animais. Pode haver uma origem inspirada em um fóssil de dinossauro, expl: o Protoceratops da Ásia central onde ele era abundante. O grifo é, também, o guardião das minas de ouro que se encontram escondidas nas altas montanhas onde eles fazem o ninho. Há uma lenda de que os grifos tiveram uma luta com os cavalos da Scynthia que tentaram roubar o ouro das minas. Como conseqüência, há uma grande antipatia entre grifos e cavalos o que encorajou os cavaleiros medievais a usar escudos com grifos para assustar os cavalos dos oponentes. Globos feitos de ovos de grifos eram cotadíssimos nas cortes medievais européias e eram, provavelmente, feitos de ovos de avestruz pela generalizada falsificação existente. No séc. XX o grifo é usado na heráldica sempre associado a pessoas, ou instituições, ligadas com as finanças.

O dragão apareceu no inicio da heráldica, permanecendo, como o grifo, inalterado por vários séculos com exceção de mais um par de pernas que ganharam no séc. XV, introduzidos, provavelmente, pelos reis de armas. Por causa dessa mudança os dragões com 2 pernas chamam-se wyvern (pg 61) e os com 4 patas chamam-se de dragões (pg 68). O dragão pode ter uma origem inspirada em fóssil de dinossauro que alguma tribo Indo européia tenha encontrado, por expl: os restos de um Tyrannosaurus rex. O dragão, associado com a heráldica, tem uma história antiga, ele veio para a Bretanha trazido pelos exércitos romanos que o usavam como insígnia para as suas coortes (regimentos militares). Os romanos se inspiraram nas insígnias dos Dácios que conquistaram no séc. II, d.C., e que se chamavam de dracones tendo asas e fogo nas ventas. Dos romanos passa para os gauleses cuja palavra draig, ou dragão, é sinônimo de líder. As armas atribuídas ao rei Uther Pendragon (dos lendários Cavaleiros da Távola Redonda), são 2 dragões verdes com coroas de ouro sobre um campo de ouro.

A harpia, pg. 65.

O cocktrice, (pg 62) também é um monstro que aparece na heráldica, ele tem cabeça de galo e asas de réptil é pequeno, com 6 polegadas, porém é muito venenoso sendo mais mortal que a cobra píton, e é considerado o rei das cobras. Em 1180, Alexander Neckham explicou que o coktrice se originou de um ovo de um velho galo incubado por um sapo.

10o) Cores:

As cores mais usadas na heráldica são: azul (realeza, majestade), vermelho (coragem, intrepidez), preto (dor, modéstia), verde (esperança, abundância).

As cores menos usadas são: azul celeste, púrpura,  vermelho escuro, laranja.

11o) Metais e Peles:

Ouro (riqueza, força, constância) e a prata (inocência, virgindade, pureza).

Arminho (campo de prata com caudas negras) e o Veiro (campânulas em prata e azul).

12o) Reis de Armas Ingleses: relacionados a partir da fundação do Colégio Inglês de Armas em 1484.

a) Garter King of Arms: John Writhe (1478-1504), Thomas Wriothesley (1505-1534) que era filho de Writhe, William Segar (1604-1633) e outros, do séc. XV até hoje.

b) Clarenceux King of Arms: Thomas Benolt (1511-1534), Thomas Hawley (1536-1557), William Hervey (1557-1567), Robert Cooke (1567-1593) e outros, do sec. XVI até hoje.

Nota: Wriothesley e Benolt foram os mais criativos, e inspirados, Reis de Armas. Em seu período de atividade eles criaram os timbres e os incluíram em todos os brasões concedidos e usaram, de maneira muito restritiva, os suportes, (quase sempre apenas para os pares do reino, num hábito que persiste até hoje).

Nota: em 1984, no 500o aniversário da fundação do Colégio Inglês de Armas, foram concedidas 191 brasões.

Em 1988, Elizabeth II da Inglaterra criou uma autoridade heráldica para o Canadá independente do Colégio Inglês de Armas fundado em 1484, que foi o 1o em toda a Europa.

Na Inglaterra entre 1647 e 1700 foram concedidos 182 brasões, deles apenas 7 mostram animais exóticos: 3 cegonhas (já extintas na Inglaterra), 2 pavões, 1 camelo e 1 urubu.

Na Inglaterra entre 1950 e 1970 foram fornecidos pelos Reis de Armas ingleses, 1.254 brasões, (dos quais, 17 tinham o canguru e, também, aparecem: zebra, girafa, bisão, castor e um koala).

Heráldica em Portugal/Brasil

Em Portugal, D. Manoel 1o, o Venturoso, (1469-1521), 14o Rei de Portugal (1495-1521), foi quem ordenou que se organizasse em Portugal um núcleo heráldico para os escudos de armas das famílias nobres, (quase que simultaneamente ao Colégio Inglês de Armas fundado em 1484) que organizou/corrigiu e mandou registrar os Brasões. Foram qualificadas com destaque 72 famílias como as mais ilustres e importantes do Reino, tendo como diferencial honra, história e bens e os seus Brasões foram pintados no teto da Sala dos Brasões do palácio de Sintra.

São estes os 72 brasões pintados no teto da Sala dos Brasões do Paço Real de Sintra:

Aboim, Abreu, Aguiar, Albergaria, Albuquerque, Almada, Almeida (brasão abaixo, que data de 1/3/1494), Andrade, Arca, Ataíde, Castro, Castro (da Penha Verde), Cerveira, Coelho, Corte Real, Costa, Coutinho, Cunha, Eça, Faria, Febos Monis, Ferreira, Gama, Góios, Góis, Gouveia, Henriques, Lemos, Lima, Meneses, Miranda, Mota, Moura, Nogueira, Noronha, Pacheco, Pereira, Pessanha, Pestana, Pimentel, Pinto, Queiróz, Ribeiro, Sá, Sampaio, Sequeira, Serpa, Silva, Sotomaior, Azevedo, Barreto, Bethancourt, Borges, Brito, Cabral, Carvalho, Castelo-Branco, Lobato, Lobo, Malafaia, Manuel, Mascarenhas, Meira, Melo, Mendonça, Sousa, Tavares, Távora, Teixeira, Valente, Vasconcelos, Vieira.  

   

   Brasão Almeida  

No Brasil, o nosso 1o Livro da Nobreza foi feito ao tempo do 1o Reinado por Rei d’armas vindo em 1808 com D. João VI e está perdido. No 2o Reinado o escrivão da Nobreza foi Luiz Aleixo Boulanger, fal. 1873, que se anunciava no Almanaque Laemmert da época como: familiarizado com os trabalhos de heráldica, encarrega-se de solicitar do governo de S. M. o Imperador, licença para o uso de Brasões de Armas, fazer cartas de nobreza e fidalguia, com desenhos conforme os apelidos ou compor armas novas.

 

CONCLUSÃO

►►►Na Idade Média a organização sistêmica da heráldica se desenvolveu muito mais como parte da cultura geral européia do que como cultura nacional de cada país (ou seja, era uma atividade globalizada que servia para integrar TODA a aristocracia européia), assim sendo, os cavaleiros europeus, graças à filiação à Igreja Latina e à participação nas cruzadas e aos ideais da Cavalaria, adotaram a heráldica dentro de um contexto comum a todo europeu e podemos considerar que o brasão de cada cavaleiro funcionava como o seu passaporte internacional para a época permitindo a sua própria identificação em toda a Cristandade.

A palavra globalização, data de 1949, mas ela mudou de sentido. Ela nasceu da campanha do "cidadão do mundo" Garry Davis, que havia renunciado, em 19 de novembro de 1948, ao seu passaporte americano em favor de um governo mundial. Sua mensagem era: todos os habitantes do planeta eram convidados a se inscrever num registro e as comunidades territoriais a se globalizar.

A Heráldica no séc. XXI: é necessário destacar que a heráldica foi o berço inicial de todas as MARCAS e logotipos que infestam o mundo hoje em dia e valem bilhões de dólares.

A consultoria Interbrand avalia a Coca-Cola como a 1a marca mais valiosa do mundo, que chegou a valer US$ 180 bilhões agora é avaliada em US$ 90 bilhões, à frente da Microsoft, temos ainda; Volks, Mercedes, Honda também valem bilhões de dólares. No Brasil a 1a marca mais valiosa é o Itaú = US$ 1,342 bilhão seguida pelo Bradesco = US$ 859 milhões e Banco do Brasil = US$ 600 milhões. Outro ponto a ser destacado é a qualidade milenar da imagem medieval que atinge o inconsciente coletivo da raça humana, pois até hoje as representações feitas há 1.000 anos atrás, mantém o mesmo significado para a humanidade e ficamos convencidos que uma flecha sugere velocidade, um leão sugere força e um castelo sugere solidez.

 

Fontes pesquisadas para estruturar este trabalho:

The Art of Heraldry, Origins, Symbols and Designs, de Peter Gwynn Jones. Barnes & Noble Books,

                 Singapore, 1998. Atenção:  as  páginas com as ilustrações  são identificadas pelos números.

Revista Genealógica Brasileira, Ano III, 1942, pgs: 383 a 397.

Titulares do Império, Carlos Rheingantz, 1960.

Folha de São Paulo, Folha Dinheiro, 6/10/05.

Folha de São Paulo, Folha Dinheiro, 9/10/05.

Folha de São Paulo, Folha Ciências, 14/12/05.

Isto É Dinheiro/410, 20/07/05.

Isto É Dinheiro/412, 3/8/05.

Carta Capital, 6/4/05.

National Geographic, December, 2004, pgs 11 a 27, December 2005, pgs 96 a 101.

Max Gueringuer, Rádio CBN, 29/11/05.

 

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