A GENEALOGIA COMO FATOR BÁSICO NA FORMAÇÃO DA CIVILIZAÇÃO
Anibal
de Almeida Fernandes, Fevereiro, 2005.
O HOMEM
começa a ser HOMEM quando começa a enterrar os seus mortos. Este é o marco
divisório entre o animal e o primeiro homem e ocorreu há cerca de 40.000 anos,
com o Homo Sapiens e o Homo Neandertal antes mesmo da agricultura e é o início
da história humana
A
propriedade privada foi garantida pela religião no alvorecer da civilização,
pois na terra era onde se assentava o túmulo dos ancestrais e o altar do lar,
reverenciando esses ancestrais mortos, os
Manes. Esta terra devia ser protegida, e cuidada através dos tempos, pois
ela recebia os mortos que são os deuses pertencentes à própria família. A
religião ordenava que o altar do lar estivesse fixo no chão e que o túmulo não fosse jamais destruído ou deslocado. Enterrar os
mortos é o 1o e mais significativo sinal de humanidade a distinguir
o Homo sapiens e o neanderthal dos demais símios. São fatos solidamente
estabelecidos no início de qualquer sociedade: a religião doméstica, a família formada pelos seus ancestrais e a
propriedade, sempre guardada pelos deuses Termos, que fixam os seus
limites e pelos Manes, os
ancestrais mortos, que são os deuses do lar. Uma linha sagrada e intransponível
separava e limitava os campos através da marcação feita, ou por pedras ou por
árvores, os Termos e os Marcos. Isso ocorreu entre os hindus, etruscos,
romanos, sabinos, além dos gregos.
Na Grécia a terra (propriedade) pertence aos que já morreram, é lá onde está o túmulo dos ancestrais da família, que é o que dá a identidade familiar, e deve ser guardada para os que vão nascer. Não existia a desapropriação e o confisco da terra só ocorre em conseqüência do exílio do cidadão. A dívida a alguém, é paga com o próprio corpo do homem que vira escravo, pois a terra é da família dele, não é do homem que fez a dívida. O direito da propriedade é inviolável e supera qualquer outro. Para o pagamento das dívidas podia-se vender apenas os bens, nunca a propriedade familiar. O filho herdava a propriedade e tinha a obrigação de continuar a culto aos Manes, deuses do lar. A propriedade não era adquirida pelo trabalho, mas, sim, recebida pela exigência religiosa do continuismo do culto doméstico aos Manes do lar que é a célula mater na formação da família, ou seja, a propriedade serve ao culto dos ancestrais mortos da família.
Tanto na Grécia, como em Roma e na India, a filha não herda, pois não pode cumprir o 1o e mais sagrado dever que é o culto aos ancestrais mortos através de uma série de repastos fúnebres que devem ser feitos continuamente apenas pelo filho homem. O ritual de oferecer uma refeição sobre o altar dos Manes, os ancestrais mortos, que são os deuses do lar, é a mais antiga forma de ato religioso conhecida no mundo. Na India este ritual está muito bem caracterizado pelas Leis de Manu, Mitakchara, coligidas pelos sacerdotes brâmanes há mais de 2.000 anos, que qualifica o parentesco não pelo ato material do nascimento, mas sim, pelo culto familiar aos ancestrais comuns. O chefe da família, 2 vezes por mês, oferece o repasto fúnebre aos ancestrais apresentando um bolo de arroz cozido (chamado pinda) aos Manes de seu pai, relacionando-os até a 7a geração, depois, oferece o bolo aos Manes de sua mãe, relacionando-os até a 5a geração. Dois chefes de família que tenham entre todos esses ancestrais pelo menos um em comum, são considerados parentes de grau sapinda, o que os deixa impedidos de casar os filhos entre si. Além da 7a geração paterna e da 5a geração materna, se retroagem os ancestrais até a 14a geração, porém, nesse caso, a libação se faz apenas com a oferta de água, e nesse caso há um parentesco de grau samanôdaca.
A filha solteira ou casada herda muito menos que o filho homem, no máximo a terça parte. Se for filha única herda a metade dos bens, desde que haja um testamento específico outorgando essa metade.
Essas crenças particulares que cercam o culto ao lar, geram um estado social que faz a família viver isolada e independente. A estrutura familiar tem o uso do patronímico que perpetua o gens (nomem) e quando os ramos familiares se tornam independentes, ganhando uma individualidade, esses ramos adotam o sobrenome (agnomem). Além disso, cada pessoa tinha a sua denominação particular.
Assim a
família se estabelece com o seu ramo primogênito, mais os ramos secundários,
seus escravos, seus servos e seus clientes formando uma associação de pessoas.
Quando as famílias se uniram, logo conceberam
uma divindade superior às divindades familiares (os Manes do lar) e ergueram um
altar comum a todas as famílias. As
várias famílias formam as fatrias
ou cúrias, as várias fatrias
formam a tribo.
O mesmo
acontece com o funcionamento político, pois apesar de continuar a coexistir uma
infinidade de pequenos governos tribais, sobre eles se coloca um governo comum.
Assim sendo, a cidade que nasce do conjunto das tribos era apenas uma confederação,
sem nada interferir no seio das familias que a compunham, e que ainda se
administram guardando uma hierarquia patriarcal/doméstica com suas leis e
responsabilidades privadas. Como exemplo: algo muito similar à
estrutura das famílias que formam as tribos Pashtun, compostas por cerca de 25
milhões de pessoas que vivem na inóspita região de montanhas e cavernas entre
o Afeganistão e o Paquistão e se relacionam até hoje sob as rígidas leis de
um antigo código tribal de honra chamado Pashtunwali, em pleno século XXI.
Na Grécia, que é o embrião do estado moderno como temos hoje, cada grego era membro de uma família, uma fatria, uma tribo, uma cidade. Havia um ritual a ser seguido para a inserção social da criança que nascia:
1a etapa: 10 dias após o
nascimento a criança era admitida na família.
2a etapa: alguns anos mais
tarde a criança é admitida na fatria.
3a etapa: aos 16 ou 18 anos
o jovem apresenta-se para ser admitido na cidade, através de uma cerimonia
ritual onde faz um juramento obrigando-se a respeitar a religião da cidade. Após
esse juramento o jovem é considerado um
cidadão.
As grandes familias patriarcais gregas, eram semelhantes às clãs célticas e tinham, cada uma, o seu chefe hereditário, ou sacerdote ou juiz. Essas famílias aparecem na história a partir de 1600 a.C., como os Cécrops de Atenas, que são uma das 12 associações familiares que, muito mais tarde, são unidas por Teseu (que é o herói mítico que mata o Minotauro e liberta a Grécia do jugo de Creta) e formam a cidade de Atenas, no alvorecer do Estado Grego.
Com a queda do Império Romano, a 04/09/476, com a deposição de Romulo Augusto que era apenas uma criança, por Odoacro que é de origem bárbara, ou da Esquiria, ou de Herul, apesar de também ser um patrício romano sob o nome de Flávio, ao morrer a 15/03/493 ele é sucedido por Teodorico, rei dos Ostrogodos e, a partir daí, segue-se uma série infindável de chefes bárbaros que se alternam brevemente no poder. Essa época de frenética agitação política/cultural que inaugura a Idade Média destroi essa estrutura de família já inserida na sociedade romana, que era muito mais lastreada no parentesco advindo do culto aos ancestrais mortos comuns uma vez que, só eram parentes entre si os que faziam oferendas aos mesmos antepassados, e deixando de lado a consangüinidade já que, um irmão e uma irmã uterinos não eram mais parentes, pois ao se casar esta irmã, ela passa a adotar os ancestrais do marido como sua família, de fato e de direito, e se desliga do seu parentesco de sangue, como aparece no estudo feito sobre a família romana dos Cipiões:
Cipião Emiliano e seus primos de 1o
grau, os irmãos Caio e Tibério Graco, não são mais considerados parentes
entre si, pois, apesar de serem todos os 3, netos de Cipião, o Africano, de
quem tem o mesmo sangue, porem apenas Cipião Emiliano é da família dos Cipiões
por descender de um filho de Cipião, o Africano, enquanto que os irmãos Tibério
e Caio passam a ser da família dos Sempronios, pois são filhos da filha Cornélia
deste Cipião. o Africano que, ao se casar com Sempronio Graco, se insere na família
dos Sempronios cultuando os seus ancestrais o que faz com que ela, e seus
filhos, deixem de descender de Cipião, o Africano.
Na baixa Idade Média apenas se tinha o nome de batismo, situação que perdura até o século XII. No século XII, começa a ser usado o patronímico e aparece o primeiro registro heráldico, documentado pela história, que ocorre quando Henrique 1o da Inglaterra concede, em 1127, ao seu genro, Geoffrey Plantageneta (Anjou), um escudo azul decorado com 3 pequenos leões dourados. O neto deste Geoffrey, William Longespee, Conde de Salisbury, falecido em 1226, está enterrado na catedral de Salisbury e tem gravado, sobre sua tumba, um escudo idêntico ao de seu avô Geoffrey, numa prova inconteste da hereditariedade do escudo na família.
O patronímico aparece sempre ligado ao nome da terra de origem do indivíduo e, daí, evolui para o sobrenome. Tenho um exemplo dessa situação em minha família graças à documentação histórica registrada de meu 13o avô, João de Nantes/Arantes, século XV, Portugal, cujo nome vem do nome desta vila do Conselho de Chaves, que pertencia à Casa dos Duques de Bragança. Esse João, nasc. cerca de 1460, era Cavaleiro Fidalgo de sangue e espada, Senhor da Quinta de Romay, Morador da Casa Real, e foi designado a 02/01/1488, Condestável (Ministro de Guerra) dos Espingardeiros d’El Rei Dom João II (1455-1495), ele tem o seu sobrenome evoluindo para Anantes, Danantes, até se fixar em Arantes, no século XVII, cuja grafia perdura até hoje nessa linhagem de mais de 500 anos de história, tanto em Portugal como no Brasil onde se estima a existência de 30.000 Arantes, e deu o nome ao título do Barão de Arantes e depois Visconde de Arantes de Antonio Belfort Ribeiro de Arantes, meu tio-trisavô, no Império do Brasil, (1822-1889).
CONCLUSÃO
É
importantíssimo destacar que a idéia religiosa de respeito/culto aos mortos
da família foi a inspiradora da sociedade humana no alvorecer da história.
Sociedade essa que, começa a se estruturar através das famílias e onde cada
família se constitue, por sua vez, graças ao culto aos seus próprios
ancestrais mortos que são os seus Manes, deuses do lar. Assim, desde o primeiro
momento que a civilização se organiza em sociedade, ela o faz levando em conta
o conhecimento da seqüência genealógica dos ancestrais de cada família, isto
é, a sociedade se estabelece baseada no registro genealógico dos mortos das várias
famílias que,
futuramente, se unem numa fatria que tem seu deus, essas fatrias se unem
numa tribo que tem seu deus comum, e essas tribos formam uma cidade
que, por sua vez, tem seu deus comum a todas as tribos. Uma vez entendido esse
conceito pode-se definir que:
Família:
é o conjunto de pessoas que reverenciam os mesmos ancestrais mortos.
O conhecimento/respeito/descrição dos ancestrais, ou seja, a seqüência genealógica desses ancestrais, que é a genealogia dos nossos avós, é um conceito inserido em todas as grandes civilizações do mundo, Sumerianos, Egípcios, Hindus, Chineses, Japoneses, Gregos e Romanos todos, sem exceção, tem o hábito de relacionar os seus ancestrais para torná-los conhecidos e qualificarem o indivíduo perante seus pares e isso funcionou como a base elementar na formação dessas civilizações que, da célula unifamiliar evolui até chegar à constituição da pátria mãe.Os escribas reais da Suméria em 2000 a.C., desolados com a derrota e a queda da 3a Dinastia de Ur, frente aos conquistadores de Isin, restauram o orgulho nacional fazendo os registros dos reis Sumerianos desde antes do dilúvio, num códice de apenas 5 reis que reinaram durante 241.200 anos (?) e mais 19 dinastias, pós-dilúvio, que reinaram até chegar à derrotada 3a dinastia de Ur, sempre exaltando o glorioso, e inigualável, passado dos Sumerianos frente aos aventureiros conquistadores.Essa abordagem delirante/mítica/grandiosa/teatral/intencional da genealogia aparece em todas as grandes Casas Reais/Imperiais do mundo, é ela que faz os Faraós e os Imperadores da China e do Japão descenderem de um deus numa seqüência milenar e contínua. Há uma delirante mistificação do passado que é sempre romanceado e atinge o ápice com a Casa Imperial dos Habsburgos, muito mais recente que a Casa Real da Dinamarca, que começa com Gorm, falecido em 940, ou a 3a Casa Real de França, que começa com Hugo Capeto em 987, falecido em 996, mas talvez por isso mesmo, por ser muito mais recente, quis superá-las em grandeza e essa Casa mais recente que começa com Rodolfo 1o (1218-1291) atinge um paroxismo de grandeza com Maximiliano 1o (1459-1519), auto eleito Imperador do Sacro Império Romano em 1508, que faz publicar uma autobiografia em 3 volumes: Theuerdank, Weisskunig e Freydal, que retroage os ancestrais dos Habsburgos até os Reis Judeus, os Príncipes de Tróia, os Imperadores de Roma e registra mais de 100 santos como seus avós.Os samurais japoneses antes de um combate entre pares, recitam sua genealogia para o oponente, que faz o mesmo para assim se qualificarem entre si e glorificar/honrar os próprios antepassados com mais essa luta entre iguais.Na Amazônia Brasileira, toda a tribo indígena mantém seus registro genealógico e o cacique passa, pela tradição oral, a cada jovem da tribo a história dos seus pais, dos seus avós e da sua tribo para que ele os conheça, os honre e os perpetue e se orgulhe de ser quem é.Por tudo isso se vê que, há uma cultura genealógica arraigada/inserida nas mais diversas civilizações, tanto ocidentais com orientais, em qualquer estágio cultural em que se encontrem, e que é essa cultura iniciada/baseada/apoiada na genealogia dos ancestrais mortos, que nos faz individualizar/identificar/marcar a nossa presença no mundo sempre através dos nossos ancestrais, nos inserindo neste fluxo/corrente/seqüência imemorial, e contínuo, que nos traz da origem do homem, no alvorecer da vida no planeta, até o presente e segue para sempre através de um filho que nos continua e que nos levará para o futuro sem limite da história, pois é o registro da seqüência genealógica da família que nos remete para a imortalidade na aventura sem fim da civilização.
The
Sumerians,
Leonard Wooley.
The
Art of Heraldry,
Peter Gwynn.
Civilization
of the Midlle Ages,
Norma F. Cantor.
The
Germanic Invasions,
Luccien Musset.
Eleanor
of Aquitaine,
Amy Kelly.
The
Habsburgs,
Andrew Wheatcroft.
Nantes,
ou Anantes ou Danantes Que Hoje He Arantes, Eduardo de Arantes e Oliveira.
National Geographic, December, 2004, pgs 11 a 27.
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